Estou me dirigindo ao Litoral (isso se deu na semana passada) e de repente aquele sinal na memória: eu tinha cometido, num artigo nesta Folha, uma dessas heresias inqualificáveis ao atribuir a Descartes as obras ''Crítica da Razão Pura'' e ''Crítica da Razão Prática'' sabidamente de Kant. Tive aquela ''gelada'' na espinha, mas a memória que faltou no momento de escrever veio fotográfica no instante da crítica ao praticamente recompor o texto. A obra cartesiana por excelência é ''O Discurso sobre o Método''. E a epígrafe que marca a sua linha é o ''Cogito, ergo sum'', o ''Penso, logo existo''.
DA MEDUSA Numa ocasião fiz um poema de página inteira para a Gazeta do Povo com uma ilustração que valia mil vezes mais do que a minha inspiração. Tratava de um tema sugestivo, a Medusa, tanto o animal, a caravela que infesta nossos mares e que queima o corpo dos que alcança com duas substâncias abrasivas e que provocam dores insuportáveis, a talassina e a congestina, quanto a sua versão mítica, uma das três Górgones. Liguei-me nas cintilações plásticas do animal e do mito, a circunstância de a própria água do mar operar como um sistema de circulação e no poder da outra Medusa, a mitológica. O saque não era mau, mas a tantas andei fundindo Ulysses com Prometeu, algo no nível do samba do crioulo doido do Stanislaw Ponte Preta. Quando me dei por achado, a ''obra'' já estava impressa.
GRACILIANO Dizem que a função faz o órgão e tanto em rádio como jornal me vejo obrigado a usar a memória para avaliações analógicas e históricas. No rádio, apesar do seu traço volátil, a resposta vem na hora e no jornal o registro permanece. Um amigo meu, o advogado Herculano Torres Cruz, de Ponta Grossa, citado na obra de Graciliano Ramos ''Memórias do Cárcere'' queixava-se da injustiça do autor na descrição de uma ocorrência entre presos políticos e contou que o visitou, pouco antes de sua morte, para ver-se livre do que considerava uma ''nódoa''.
O POEMA No caso do poema há uma outra interferência mnemônica, da memória: na praia de Piçarras, anos 50, vi, flutuando, além da rebentação, algo que julguei tratar-se desses equipamentos de mergulho. Jovem, nadava bem e quando me aproximei do objeto já cavalgando uma onda vi que se tratava de uma dessas flores ornamentais, uma gigantesca medusa com seus tentáculos ocupando mais de um metro de raio. Quando busquei fugir era tarde: os filamentos me atingiram e as substâncias urticantes chegaram rapidamente à corrente sanguínea e me bloquearam os rins, dores terríveis, ânsia de vômito. Ao sair do mar fui atendido e despenderam dezenas de garrafas de vinagre para retirar o visgo que estava por todo o corpo e na sequência levado a um hospital para o trabalho de desintoxicação. Isso ajuda a manter um condicionamento na memória, como Pavlov ensinava e me deu a idéia das dimensões da façanha de Perseu que, desafiado pela Medusa com as serpentes na cabeça, a matou. Por sinal que há medusas, cujo poder urticante é mortal. Prefiro musas do que medusas, mesmo quando ardilosas e inesperadas, e que nos enchem de paixão.

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