A Fórmula 1 conhece o Brasil
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sexta-feira, 18 de abril de 2003
Marcelo Rubens Machado 
Renato Russo foi um ícone de minha geração. Suas letras politizadas e sua voz marcante conseguiram ''fazer a cabeça'' dos jovens de minha época. O País ainda cheirava à ditadura, a democracia caminhava como criança nova, e o músico se perguntava: ''Que País é esse?''. Naquela época, eu acreditava que resolveríamos nossos problemas quando elegêssemos o presidente da República. Mais tarde, as crenças voltaram-se aos milagrosos planos econômicos que prometiam acabar com a inflação por decreto. Depusemos um presidente e afastamos deputados e senadores corruptos.
Apesar de mazelas como a emenda da reeleição e a gritante desigualdade social que ainda persiste, é preciso que se reconheça que houve avanços. A hiperinflação, causadora de tanta pobreza, foi extinta. Importantes ações sociais como o Bolsa-Escola e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, criados no governo passado, já surtem efeitos, como atestam recentes pesquisas do IBGE. Agora a classe política cita as reformas tributária e previdenciária como tábuas de salvação para o Brasil (como se houvesse uma), mas ''esquecem'' que o modo de fazer política neste país também precisa ser repensado, e com urgência, pois é onde menos avançamos.
Lula da Silva aliou-se à direita conservadora em troca de apoio político. Sarney recebeu a Presidência do Senado e, de quebra, sua filha pôde desbloquear mais de 1 milhão de reais apreendidos pela PF em seu escritório político, de origem tão duvidosa que seu marido chegou a dar cinco versões diferentes para a dinheirama. ACM, apoiado pelo governo, só não preside a Comissão de Constituição e Justiça do Senado porque está sendo acusado de grampear telefones.
A esposa do ministro da Fazenda recebe 5 mil mensais da Fundação Nacional da Saúde, em Brasília, sem ter feito concurso público. Ministros de Estado eleitos para o Legislativo recebem salários de deputado, e não do cargo que ocupam, porque assim podem desfrutar de um acréscimo de 4 mil reais, pagos por nós, contribuintes. O presidente do Banco Central é tucano e foi citado em CPI que concluiu ter havido sonegação de impostos pelo banco que administrava.
Recentemente, o deputado João Paulo Cunha, do PT, declarou que as reformas não foram apoiadas pelo seu partido, no governo passado, porque ''estava em disputa o poder''. Em outras palavras, o País ficou em segundo plano. A política econômica adotada pelo atual governo é idêntica à do anterior, execrada pelo PT quando oposição, e cujas críticas foram a mola propulsora dos 52 milhões de votos recebidos por Lula. Estaríamos diante de um estelionato eleitoral?
O PT é conhecido por seu combate à corrupção. É louvável, mas não suficiente, pois governar não se resume a investigar. É preciso que seus líderes expliquem ao País as incoerências, cada dia mais evidentes, entre o seu discurso do passado e as ações do presente, sob o risco de perderem credibilidade e, o País, a oportunidade de avançar. Do contrário, teremos de concordar com Bernie Eclestone, o chefão da Fórmula 1. Após a edição da Medida Provisória que permitiu que os carros da categoria estampassem propaganda de cigarros no GP do Brasil deste ano, contrariando políticas anti-tabagistas modernas, ele disse: ''Isso é o Brasil''. Que ironia! Anos depois da morte de Renato Russo, um estrangeiro responde à pergunta que até hoje, nós, brasileiros, não soubemos responder.
MARCELO RUBENS MACHADO é professor em Londrina e mestre em Biologia Celular pela Universidade Federal Paraná


