A força do voto-rejeição
Um dos eleitores de maior peso em 2002 terá o nome de voto-rejeição. Trata-se do voto que, em nenhuma hipótese, será dado a um candidato, em função da rejeição que provoca no eleitor. O voto-rejeição é consequência de um novo clima que se irradia pelo País e que tem como causas a saturação de perfis, a continuidade de padrões da velha política, o mandonismo de grupos familiares e a ausência de compromissos de candidatos com uma nova ordem social e política.
Os maiores ícones da rejeição na política brasileira são Paulo Maluf, seu afilhado político e, hoje, adversário, Celso Pitta, e Orestes Quércia, todos identificados com o estilo arromba-porta. Maluf cultivou o obreirismo faraônico, que deu margem a uma ampla folga de denúncias sobre superfaturamento. Quércia ficou famoso pela frase a ele atribuída: quebro o Banespa, mas elejo meu sucessor, Fleury. E Pitta foi a bomba atômica que assolou São Paulo.
Como se pode perceber, o perfil rejeitado está identificado com corrupção e formas ultrapassadas de fazer política. Nem adianta posar de oposicionista, como Quércia, que paga um grupo de baderneiros do jurássico MR-8 para lhe fazer corte nas mobilizações. Ou seja, político rejeitado tem e terá claque, principalmente quando possui o bolso cheio, como Quércia, hoje considerado uma das maiores fortunas do País. Maluf, por exemplo, já sai, como candidato a qualquer posto, de um patamar de cerca de 15% de votos. É muito. Mas o malufismo faz parte da tradição política do País, que incorpora as mazelas do fisiologismo, do grupismo, do patrimonialismo, do mandonismo, do caciquismo. Quanto mais se bate no Maluf, mais o malufista adensa seu fanatismo. Felizmente, o voto-rejeição não permite que ele ultrapasse determinado espaço de votos.
O fenômeno da rejeição não pega apenas perfis da direita. Lula, por exemplo, tem alto índice de rejeição. Por isso mesmo, ele pode até ser eleito como o pai de uma síndrome: a síndrome-Lula, pela qual o candidato nada, nada, nada, até morrer na praia. De Lula, sabe-se que é o candidato dos 30% dos votos. Não consegue ultrapassar essa faixa, tragado pelo voto-rejeição. A explicação da rejeição de Lula agrega fatores como a conhecida capacidade de fazer diagnósticos e a incapacidade de propor soluções; um discurso rouquenho cheio de raiva, que ainda amedronta, no qual se identifica a vontade de virar a mesa abruptamente. Por mais que os brasileiros estejam sofrendo no capítulo auto-estima, temem mudanças bruscas. E Lula é quase uma logotipia ambulante na sinalização do destempero e das fortes alterações de rumo.
Pode um candidato com alto índice de rejeição administrar esse problema, de modo a atenuá-lo e a viabilizar com eficácia a candidatura? Para cargos proporcionais, a rejeição tem efeito menor, pois o candidato poderá contar com uma massa de eleitores capaz de lhe dar vitória. Para cargos majoritários, a questão é mais complexa, porque fatores exógenos entram na composição da maior ou menor taxa de rejeição, como tipos de apoios, ambiente político, turbulências versus estabilidade na administração dos governos federal e estadual, estados de comoção etc. Mário Covas, por exemplo, foi alçado ao patamar dos heróis, pela comoção no enfrentamento da doença. Seu governo, é bom dizer, foi um fracasso no combate ao maior problema do Estado: a violência e a bandidagem.
A administração da rejeição constitui um processo complexo, que não comporta apenas eixos de marketing, como muitos pensam. O problema exige uma operação endógena, interna, que se liga a comportamentos, atitudes, ações pessoais e até maneiras de expressão e gesticulação. Toda vez que Maluf levanta o nariz, para exprimir aquela empostação de voz nasalada, mostra-se arrogante. Há que se combinar o expressionismo pessoal com um programa de reordenação de ações junto aos segmentos que fazem rejeição. Muito cuidado é necessário, pois a requalificação do político, quando artificializada, terá efeito bumerangue, voltando-se contra ele. O terceiro eixo a ser operado é o planejamento criativo de idéias, ou seja, um programa de ação interessante, inovador, moderno, avançado, que de tão revolucionário poderá atrair as atenções e provocar simpatia naqueles que rejeitavam o candidato. Só os imbecis não mudam, já dizia Ortega y Gasset, porque nascem tortos. Os políticos rejeitados começam a mudar quando, modestamente, passam a identificar seus erros.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político. E-mail:[email protected]





