Vivemos um tempo em que não se lê, se vê. Vale o que informa a TV. Sem leitura é impossível pensar. E até conversar. Rumina-se informação, repetem-se modismos. Empobrece-se a vida, em nome de um falso cosmopolitismo. Pensar, certo ou errado, nasce da leitura, da palavra impressa. O mais importante pensador italiano contemporâneo, Norberto Bobbio, em seu último livro, já editado no Brasil, ‘‘O Tempo da Memória’’, ao citar outro importante italiano que tem hábito de pensar, Guido Ceronetti, transcreve: ‘‘Sempre que posso faço apaixonada apologia de escrever cartas entre seres pensantes, ainda não embrutecidos, que se comunicam apenas pelo telefone, ou então por fax ou telefone celular. O homem que pensa de verdade escreve cartas aos amigos’’.
Recentemente Roberto Pompeu de Toledo, em um ensaio publicado pela revista ‘‘Veja’’ (25/06/97), escrevia: ‘‘ A comunicação escrita é muito eficiente, inclusive porque tem um dom de atravessar os séculos. Tomemos Camões. É autor de uma obra escrita que atravessou séculos. Camões comunica-se conosco, quatro séculos depois de sua morte, porque se utilizou dessa ferramenta insubstituível que é a palavra gravada num papel, ou num papiro, ou numa prensa’’. Pompeu de Toledo destaca que tende-se a esquecer, nestes tempos, que o melhor meio de comunicação já inventado é a palavra.
Aquela conversa de olho no olho, habitualizada com o ato de fazer visitas, de coloquialmente conversar, por horas, com as pessoas, diretamente, está desaparecendo. Para Roberto Pompeu de Toledo, ‘‘a humanidade caminhou milhões de anos para voltar ao ponto de partida. Começou magnetizada pelos desenhos das paredes das cavernas e terminou magnetizada diante das figuras de alta definição nas paredes onde se embutem os aparelhos de televisão’’.
O fato é que estamos vivendo um tempo de culto à imagem. E a palavra serve, muitas vezes, não para expressar um pensamento ou uma idéia, mas para enganar, mistificar. Os marqueteiros amadores ou profissionais estão aí, vivinhos, para comprovar.
O poeta francês Paul Eluard constatou que ‘‘o homem é o estilo’’. O estilo é fundamental. Se faz a opção pelo ‘‘marketing’’, bestializa-se, banem-se as forças das idéias, empobrece o pensar, vulgarizam-se modismos, reduzindo a importância das palavras. Essa ferramenta essencial pela qual uma sociedade, um povo, se pereniza quando a cultua. Ou desaparece, como tantas civilizações, quando perde a sua identidade nacional.
O Brasil, país jovem, ainda por completar 500 anos de efetiva integração no mundo moderno, não pode descuidar-se, através do seu sistema educacional, do primário ao superior, de cultivar ao invés da ‘‘civilização da imagem’’, ‘‘a civilização da palavra’’. Na sua genialidade de poeta Omar Khayan recitava ‘‘vamos viver o presente, já que o passado se foi e o futuro é uma incógnita’’. Um povo precisa conhecer o futuro, muito diferente da expressão do poeta a quem como sonhador devemos respeitar.
Não se pode, não se deve e tem de se combater as várias tentativas de desvalorização da comunicação escrita. E nisso a imprensa escrita, através dos vários jornais e revistas que se editam pelo Brasil afora, cumpre uma missão fundamental. A força da palavra impressa, para o bem ou para o mal, faz o povo pensar. O texto escrito abre horizontes, alimenta a alma. Até no jogo do bicho a palavra é a base do negócio: ‘‘Vale o que está escrito’’.
No século passado o imortal Castro Alves proclamava ‘‘bendito o que semeia, livros a mancheia, e faz o povo pensar’’. É a força da palavra.

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