A força da palavra - Hélio Duque
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 1997
Hélio Duque 
Vivemos um tempo em que não se lê, se vê. Vale o que informa a TV. Sem leitura é impossível pensar. E até conversar. Rumina-se informação, repetem-se modismos. Empobrece-se a vida, em nome de um falso cosmopolitismo. Pensar, certo ou errado, nasce da leitura, da palavra impressa. O mais importante pensador italiano contemporâneo, Norberto Bobbio, em seu último livro, já editado no Brasil, O Tempo da Memória, ao citar outro importante italiano que tem hábito de pensar, Guido Ceronetti, transcreve: Sempre que posso faço apaixonada apologia de escrever cartas entre seres pensantes, ainda não embrutecidos, que se comunicam apenas pelo telefone, ou então por fax ou telefone celular. O homem que pensa de verdade escreve cartas aos amigos.
Recentemente Roberto Pompeu de Toledo, em um ensaio publicado pela revista Veja (25/06/97), escrevia: A comunicação escrita é muito eficiente, inclusive porque tem um dom de atravessar os séculos. Tomemos Camões. É autor de uma obra escrita que atravessou séculos. Camões comunica-se conosco, quatro séculos depois de sua morte, porque se utilizou dessa ferramenta insubstituível que é a palavra gravada num papel, ou num papiro, ou numa prensa. Pompeu de Toledo destaca que tende-se a esquecer, nestes tempos, que o melhor meio de comunicação já inventado é a palavra.
Aquela conversa de olho no olho, habitualizada com o ato de fazer visitas, de coloquialmente conversar, por horas, com as pessoas, diretamente, está desaparecendo. Para Roberto Pompeu de Toledo, a humanidade caminhou milhões de anos para voltar ao ponto de partida. Começou magnetizada pelos desenhos das paredes das cavernas e terminou magnetizada diante das figuras de alta definição nas paredes onde se embutem os aparelhos de televisão.
O fato é que estamos vivendo um tempo de culto à imagem. E a palavra serve, muitas vezes, não para expressar um pensamento ou uma idéia, mas para enganar, mistificar. Os marqueteiros amadores ou profissionais estão aí, vivinhos, para comprovar.
O poeta francês Paul Eluard constatou que o homem é o estilo. O estilo é fundamental. Se faz a opção pelo marketing, bestializa-se, banem-se as forças das idéias, empobrece o pensar, vulgarizam-se modismos, reduzindo a importância das palavras. Essa ferramenta essencial pela qual uma sociedade, um povo, se pereniza quando a cultua. Ou desaparece, como tantas civilizações, quando perde a sua identidade nacional.
O Brasil, país jovem, ainda por completar 500 anos de efetiva integração no mundo moderno, não pode descuidar-se, através do seu sistema educacional, do primário ao superior, de cultivar ao invés da civilização da imagem, a civilização da palavra. Na sua genialidade de poeta Omar Khayan recitava vamos viver o presente, já que o passado se foi e o futuro é uma incógnita. Um povo precisa conhecer o futuro, muito diferente da expressão do poeta a quem como sonhador devemos respeitar.
Não se pode, não se deve e tem de se combater as várias tentativas de desvalorização da comunicação escrita. E nisso a imprensa escrita, através dos vários jornais e revistas que se editam pelo Brasil afora, cumpre uma missão fundamental. A força da palavra impressa, para o bem ou para o mal, faz o povo pensar. O texto escrito abre horizontes, alimenta a alma. Até no jogo do bicho a palavra é a base do negócio: Vale o que está escrito.
No século passado o imortal Castro Alves proclamava bendito o que semeia, livros a mancheia, e faz o povo pensar. É a força da palavra.


