A fonte do meu otimismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 1997
Antonio Belinati 
Tenho de recorrer novamente aos bancos para pagar o funcionalismo. É a segunda vez, desde que constatamos que a dívida comprometida da prefeitura é muito superior à divulgada. As despesas fixas também são maiores que a receita. Respeito quem batalha pra viver. Venho de uma família humilde. Sempre me desdobrei para garantir que nenhuma família de funcionário fique em sobressalto por causa do salário.
Fui aos bancos, como disse, e pode ser que aconteça de novo. Não é uma situação que se resolva por vontade própria. Não gosto de me desculpar com o argumento, procedente, aliás, de que os municípios estão em dificuldades.
Os problemas agora estão na minha mesa e eu tenho de resolvê-los. Em janeiro tomei emprestado para pagar o salário de dezembro e o 13º , de responsabilidade da gestão anterior. Desta vez, fui ao mercado para pagar o salário regular de abril, e sobre este empréstimo incidirão juros. Luto para não ficar escravo dos bancos. E não vamos ficar, com certeza.
Como todos que tiveram a sorte de contar com um bom pai, também recebi algumas lições de vida - e o ensinamento de que otimismo e senso de realidade são indispensáveis à nossa existência. Meu pai era um trabalhador pobre. Eu me lembro dele dando tudo de si para vencer as dificuldades materiais. Seu José não desistia, era forte, e pôde, enfim, nos criar com simplicidade, mas com saúde. Hoje, adulto, fazendo política, me apóio no temperamento de meu pai sempre que perguntado sobre minha serenidade, mesmo quando as coisas são difíceis.
Na verdade eu teria todos os motivos do mundo para desanimar. Já perdi eleições. Fui ofendido. Esperei, aflito, certa vez, uma recontagem de votos. Já recebi olhares frios e recusa de aperto de mão em época de campanha. É horrível. Tive até de suportar calado o marketing depreciativo à minha pessoa, produzido grosseiramente ao longo dos últimos anos por um grupo paroquial e autoritário. Na carreira que escolhi, você também contraria interesses, perde amigos, provoca ciumeiras e ingratidões de toda a espécie. E tem que encarar com toda a dignidade do mundo certas situações desconcertantes, como agora, em minha última posse. Fiz mais de 100 mil votos e não pude ter, infelizmente, uma cerimônia de transmissão de cargo.
Mas lá se vão 30 anos, e só resisti, inteiro, porque enxergo o lado bom das coisas. Fui eleito prefeito três vezes, e isso é inédito no município. Estive em Brasília e em Curitiba como deputado. Fiz a casa popular para o nosso trabalhador, a transposição da linha férrea, o Calçadão, a Maternidade, o Autódromo e destinei os maiores investimentos, até hoje, para a Saúde e a Educação. Faço política com confiança e bondade, procuro saber dos fatos e suas conexões, estou em contato com as autoridades que decidem, analiso a realidade, viajo atrás de recursos, recebo o povo, converso com técnicos. Sempre acreditei que o bom político deve ajudar o povo a melhorar de vida. Para mim, bom senso, negociação, trabalho e força positiva são fundamentais. Reforçado pela experiência, meu otimismo me ajuda a administrar os problemas. E olha que eles não são poucos, podem crer.
Os especialistas da USP me dizem que a máquina da prefeitura está perigosamente inchada, e recomendam demissões. A recente reforma administrativa estabeleceu que nenhum município pode gastar mais de 60% do orçamento com pessoal. Tenho de pensar em todas as saídas. Implantei a austeridade desde o primeiro dia. As contratações estão suspensas, bem como as horas-extras. Secretários acumulam funções, e os gastos estão contingenciados em 30%. Estamos revendo convênios e contratos. Até agora pude contornar os problemas encontrados, resolvendo-os com pouco dinheiro, graças à experiência, à equipe e à comunidade, sempre compreensiva.
Foi assim que lançamos as bases da Cidade Industrial. Demos a partida na construção do Centro de Eventos. Concretizamos o Plano de Desenvolvimento Industrial. Trouxemos US$ 40 milhões de dólares em investimentos, através da maior fábrica de embalagens do país. Rompemos com o monopólio do transporte coletivo e vamos ampliar a rede de saneamento básico. Negociamos com o Banco do Brasil a cessão de uma grande área para uma fábrica de artes e cultura. O Banco do Empreendedor está prestes a operar. Em breve, inauguro escolas de informática para a juventude dos bairros.
Nesse panorama, as demais obras de meu plano de governo ficarão para o próximo ano. Não temos dinheiro mas contamos com o potencial extraordinário da cidade e a boa vontade de nossa população, onde incluo até mesmo aqueles que não votaram em mim. Este mandato me reserva a tarefa de reestruturar a administração pública em Londrina para adequá-la ao novo tempo que o país vive. Devo investir na infra-estrutura da industrialização, asfalto e esgoto, sem descuidar da saúde e educação. Devo priorizar também um investimento em cultura e paisagismo para deixar Londrina mais alegre e moderna. A cidade crescerá mais, porém a equação está em fazer com que seu desenvolvimento não prejudique sua qualidade.
As principais lideranças estão unidas conosco em torno dos projetos estratégicos de Londrina. Com o governador Jaime Lerner tenho uma relação amistosa no campo administrativo e crítica no político. Minha mulher, Emília, é hoje respeitada por sua personalidade, e seu futuro nas próximas eleições começa a ser debatido por amplos setores.
Na prefeitura, estudo ações no âmbito da Comurb para capitalizar melhor a empresa. A Sercomtel está se livrando dos problemas jurídicos, ampliando seus serviços, ganhando mercado e atraindo parceiros. Minha orientação é de que a empresa se fortaleça, valorize-se e prepare-se para a abertura do mercado das telecomunicações. Na Cohab, estamos estudando soluções apropriadas para a carência habitacional.
Então, quando me perguntam da minha serenidade, eu só posso responder que Londrina é mais poderosa que seus problemas. E que esta cidade só quer saber mesmo é de progredir. Penso que, se meu pai estivesse aqui, dirigindo a casa, cuidando de uma família tão boa de cidadãos, ele certamente lutaria para proporcionar saúde e alegria a todos, com otimismo e visão realista do mundo.
Eu acredito nas mesmas coisas.


