A fome que desmente tudo
''Fome crônica afeta 120 mil pessoas em Londrina'', diz a manchete deste jornal, ontem. As repórteres Carolina Avansini e Mariana Guerin tomaram como base dados oficiais e depoimentos de pessoas dos bairos, os atores de um cenário que precisa ser mudado urgentemente. Perto de 40 mil famílias vivem todos os dias a incerteza de ter ou não comida na mesa. São trabalhadores que precisam sobreviver com menos de um salário mínimo.
Se Londrina está assim, dá para imaginar o que acontece com municípios mergulhados em bolsões de miséria por esse Brasil afora. Não adianta dar alimentos simplesmente, embora de imediato as doações (de comida, remédios, consultas médicas) são consideradas inadiáveis. Essa gente precisa mais: precisa de emprego e escola. Boas escolas, com merenda nível excelência. Pelo menos assim, a alimentação das crianças está garantida ainda que uma vez por dia.
Programas sociais não são suficientes. É preciso dar condições para essa gente produzir com suas próprias forças. Menos bolsa de donativos e mais emprego e renda. Uma das formas de gerar empregos é desonerar as empresas, para que contratem trabalhadores. Nesse caso, fisco tem que deixar de sugar o lucro dessas empresas. Os dados sobre Londrina incomodam porque a região é considerada rica.
A fome mata. Mas o que mais revolta é quando ela elimina a chance de futuro. A criança que sobrevive à miséria tem o seu futuro comprometido de outra forma. Veja o que disse a esta FOLHA, no mesmo dia da denúncia, o sociólogo Ronaldo Baltar:
Vale repetir: A consequência da falta de segurança alimentar é o comprometimento das perspectivas de vida. Sem obter a quantidade mínima de calorias necessárias para sobreviver, as pessoas concentram energias na busca por comida e ficam à margem da qualificação para conseguir emprego e inserção na sociedade.





