A fome no mundo - Editorial
A fome no mundo
Segundo informação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) cerca de 834 milhões de pessoas correm o risco de morrer de desnutrição no mundo, número oito milhões maior do que o registrado em 1996, época em que a Câmara Mundial de Alimentação prometeu reduzir a fome no planeta pela metade.
Esta constatação já é grave, mas outra observação da FAO dá uma dimensão ainda mais trágica à situação ao garantir que, ao contrário do que ocorria no passado, existem, hoje, alimentos suficientes para atender todos os habitantes do planeta. Entretanto, conforme assinalou o diretor-geral da entidade, atualmente muitos morrem de fome enquanto os alimentos apodrecem em armazéns. A Câmara Mundial de Alimentação de 1996 garantiu que reduziria pela metade a quantidade de pessoas desnutridas no mundo, total que na época chegava a 826 milhões. Mas esta cifra aumentou 8 milhões este ano. A quase totalidade dos desnutridos habita o chamado mundo em desenvolvimento.
A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos, Catherine Bertini, lembrou que 1998 foi o ano marcado por uma combinação de tragédias sem precedentes que determinaram um aumento da fome em todo o mundo. Catástrofes climáticas como o furacão Mitch na América Central e no Caribe e as inundações na Ásia, a crise econômica da Indonésia, as guerras civis em Angola, Guiné-Bissau, Kosovo e Serra Leoa são alguns dos desastres ocorridos nos últimos meses.
A consequência foi que o Programa Mundial de Alimentos deu ajuda a 75 milhões de pessoas em 1998, um número sem precedentes para um só ano, e mais da metade dos necessitados era de mulheres e meninas. Cerca de 40 milhões de beneficiados com a ajuda alimentar foram vítimas de desastres naturais como secas, inundações e más colheitas. Além disso, pela primeira vez em vários anos, a maior quantidade de beneficiados foi de asiáticos.
Bertini explicou que a crise financeira da Indonésia criou uma escassez geral de alimentos e uma nova população de pobres que procedem da classe média. Ao mesmo tempo, as consequências dos desastres naturais, que sempre causaram insuficiência alimentar, foram mais graves do que nunca em 1998. O furacão Mitch foi o maior desastre natural que afetou a América Central e o Caribe em 200 anos, enquanto Bangladesh e a China sofreram inundações devastadoras. Prognósticos para este ano indicam que aumentará a quantidade de países em estado de emergência e o número de pessoas necessitadas de assistência.
No prólogo do relatório do Programa Mundial de Alimentos, o secretário geral da ONU, Kofi Annan, escreveu que, atualmente, é mais fácil conseguir recursos para resolver emergências do que para o desenvolvimento. Entretanto, ponderou sabiamente, caso houvesse mais investimentos para o desenvolvimento, em especial nas regiões mais carentes, haveria maior resistência aos desastres e, com isto, seria reduzida a necessidade de assistência em futuras emergências.
Annan lembrou, porém, que para um sexto da população mundial, que sofre de desnutrição crônica, o desenvolvimento econômico e social só será possível quando suas necessidades básicas de alimentação estiverem cobertas, o que cria um tipo de situação aparentemente insolúvel.
A partir das ponderáveis observações do secretário da ONU tem-se as duplas diretrizes que podem modificar esta situação: distribuir melhor os alimentos para enfrentar a ameaça atual da fome e, ao mesmo tempo, investir nas nações mais carentes para criar condições de desenvolvimento que melhorem suas situações, dando-lhes possibilidades de resolver seus angustiantes problemas.





