O Paraná prepara-se para enfrentar mais um paradoxo difícil de assimilar. O Estado que produz cerca de um quinto da riqueza agrícola brasileira, tem cerca de dois milhões e meio de seus filhos na pobreza, beirando a miséria. A constatação de que a fome não é privilégio de regiões áridas nordestinas, mas coexiste com a fartura e a riqueza, nos deixa estarrecidos.
A Secretaria Estadual do Emprego, Trabalho e Promoção Social ficou encarregada de lançar a gênesis do que será o ''Programa Fome Zero - Paraná''. Tentando driblar algumas críticas que são dirigidas ao ''fome zero nacional'', procurou-se uma dinâmica assente em princípios que dêem consistência ao dito programa. Na verdade ele será essencialmente um programa estruturante, voltado para as causas geradoras da pobreza e da fome. Visa a construção de um novo modelo de desenvolvimento que privilegie o crescimento econômico com redistribuirão de renda, geração de empregos e reforma agrária entre outras políticas de inclusão social.
Qualquer medida mais emergencial tomada, deve ser sempre educativa em relação aos hábitos e práticas alimentares da população, organizativa para a defesa dos direitos de cidadania e emancipadora visando promover a autonomia e não a dependência dos beneficiários. Não serão portanto iniciativas meramente assistencialistas.
Se o programa é uma iniciativa governamental, ele não tem a pretensão de ser o ''descobridor da pólvora''! Sabemos que ao longo de séculos, inúmeras entidades sociais, pastorais, igrejas, ong's etc. foram parceiras do Estado, e às vezes, até o substituíram por lacuna deste, no combate às grandes mazelas sociais. O que se busca agora é otimizar parcerias e articulá-las rumo ao único objetivo, que é obrigação de todos os brasileiros de boa vontade, como seja, erradicar a fome.
Compete aos governos federal e estadual devolver o que de direito é de todos os cidadãos e zelar pela aplicação dos recursos utilizados nos vários programas sociais. A sociedade, continuará enfrentando o eterno desafio da solidariedade que fará com que ninguém se possa sentir ''de fora''.
Em 18 Fóruns Regionais realizados em todo o Estado, debates em torno de um instrumento de trabalho, abrirão alas para a elaboração de um consistente programa estadual que será executado principalmente por Comitês Gestores municipais. Serão os cidadãos a colocarem em prática os programas por eles mesmos sugeridos. Tratando-se evidentemente de uma área programática, o ''fome zero'' só se encerrará quando o objeto que o move se tiver esgotado. O combate à desnutrição durará enquanto existirem famintos em nosso país!
Quanto aos recursos de que disporemos para essa luta, creio que não é o ponto essencial da discussão. A criatividade de nosso povo posta à prova em tantas circunstâncias será fundamental para levar a cabo uma luta eficiente contra a fome. Como fala o secretário Pe. Roque Zimmerman, que todos ''ponham a mão nesse pirão''.
Algumas críticas ao Fome Zero Brasil poderão até ter tido um fundo justo, mas entendo que qualquer precipitação ou preconceito neste momento, em nada ajudará na realização do mesmo. Como qualquer sonho que vira projeto real, também este demanda tempo e algumas peripécias para se afirmar e se autocorrigir ao longo do processo.
PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é chefe do escritório Regional da Secretaria do Emprego e Promoção Social

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