A foice e a enxada nos século XXI - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Nesse final de século, quando as sondas espaciais analisam galáxias e o homem navega rumo ao universo, o planeta terra ainda mantém o atraso humano cuja causa, sem dúvida, é a ignorância. Assim, se por um lado algumas conquistas espetaculares na área da ciência e da tecnologia, aliviam o fardo de viver nesse mundinho perdido nas imensidões do cosmos, por outro parece que a essência do homem continua a mesma que o caracterizou desde quando conseguiu ficar de pé e emitir os primeiros grunhidos.
Naturalmente, por circunferências históricas, políticas e culturais, certas sociedade se adiantaram mais que as outras, mas especialmente nesta era da globalização, em que a competição se acirra em termos de competência, todo o cuidado é pouco para não perder o foguete do progresso. Quem se atrasar vai ficar andando no bonde do atraso, e amargar ainda mais os contrastes do futuro milênio.
No Brasil, que aos solavancos caminha rumo ao século XXI, curvado ainda sob o peso de sua herança colonial, os contrastes que sempre nos caracterizam continuam presentes. Tomemos, por exemplo a questão agrária, e coloquemos em foco dois tipos de personagens que ainda costumamos chamar de fazendeiro e sem-terra. Sobre um e outro pairam certos conceitos que precisam ser desmitificados para que nós, os urbanos, não corramos o risco de passar fome.
Para começar, já existe uma alteração de linguagem que traduz na verdade um conceito novo. É que o vocábulo fazendeiro está começando a ser trocado por agropecuarista, ou empreendedor agrícola, ou produtor agrícola, enquanto vai emergindo no mundo da globalizado uma fantástica rede de negócios denominada de agribusiness. Portanto, a arraigada imagem popular do fazendeiro, tido como homem de modos rudes de emergiu da capitanias hereditárias como senhor patriarcal confinado nos seus imensos domínios territoriais, vai se diluindo até chegar aos contornos do moderno agroindustrial que trabalha e gera riquezas para o país através do agribusiness. Sobre o assunto, vale a pena relembrar um trecho publicado na Folha, de autoria de Judas Tadeu Grasso Mendes, Phd. e Pós-Doutor em Economia Agribusiness pela Ohio State University:
No conceito de agribusiness estão incluídos os fornecedores de bens e serviços para a agricultura, os produtores rurais, os processadores, os transformadores e distribuidores, todos os serviços financeiros, de transporte, classificação, marketing, seguros, bolsas de mercadorias, entre outros. Todas essas operações são elos de cadeias que se tornaram cada vez mais complexos à medida em que a agricultura de modernizou e o produto agrícola passou a agregar mais e mais serviços, que estão fora da fazenda.
A exemplo dos Estados Unidos e do mundo, o agribusiness, compreendendo o segmento de alimentos, fibras e energia renovável (álcool e cana-de-açúcar) é o maior negócio da economia brasileira, uma vez que representa: mais de um quarto do seu produto interno bruto (PIB), cerca de 40% das receitas de exportação do Brasil, quase 40% do total de emprego gerado no país, e a utilização de mais da metade da frota nacional de caminhões.
Esses dados demonstram que a grande riqueza gerada pelos negócios da agropecuária se dá fora da porteira da fazenda, e é essa a visão moderna da agricultura, que mesmo as pessoas do meio urbano devem ter. Afinal, sem os produtos do agribusiness, o ser humano devem ter. Afinal, sem os produtos do agribusiness, o ser humano não sobreviveria.
Quanto a palavra sem-terra, que também implica num conceito e trás consigo uma grande carga emocional, precisa ser resista. Primeiro, porque uma grande parcela dos sem-terra já receberam terras do governo; segundo, porque existem sem-terra que nunca lidaram com a terra, e que participaram do MST com intenções meramente comerciais; terceiro, porque o MST transformou não só os falsos como verdadeiros sem-terra em meros invasores de terras alheias, os quais se utilizam da violência, da provocação, do esbulho, e burlam a lei no tocante ao total desrespeito à propriedade.
Para piorar, os líderes do MST, que no fundo não sonham com reforma agrária mas com o modelo Chiapas, ou Sendero Luminoso, opõe no meio rural o cabo da enxada, a agricultura primitiva, o minifúndio improdutivo, ao agribusiness. O próprio José Rainha já notou que os acampamentos de lona preta (onde ele, os demais chefes e os intelectuais orgânicos do Movimento não permanecem, talvez por considerá-los pouco confortáveis) estão se transformando em favelas. De fato, o MST, em nome de uma equivocada reforma agrária, está transportando a favela da cidade para o campo num movimento inverso, pois já que perderam a foice e o martelo pelo menos querem contar com o consolo da foice e a enxada. Parece que os mentores do Movimento têm uma atração irresistível para o atraso, e na sua caminhada para trás arrastam consigo milhares de ingênuos necessitados de terra, e espertos em busca de terra. Mas enquanto a não dos sem-terra toca fogo nas fazendas invadidas e busca seu cadáver heróico, os astronautas, olhando do espaço sideral, concluem que a terra é azul. Ah, esses contrastes de final do século!
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


