A fisiologia de uma derrota - Walmor Macarini
A vida é semelhante a um jogo de futebol. Se já entramos em campo predispostos a segurar o placar que nos favorece e desprezamos a busca do gol, vamos com toda certeza pagar o preço dessa negligência.
O jogo do último domingo, decisivo do campeonato brasileiro - entre Portuguesa e Grêmio, em Porto Alegre -, demonstrou mais uma vez que no futebol sempre aconteceu assim, mas nunca técnico algum, nem jogadores, aprenderam a lição, por isso nunca mudaram de tática. Na vida aqui fora do gramado é a mesma coisa, com idênticos e sucessivos desacertos, mas persistimos em manter velhos sistemas.
A razão desta crônica não é avaliar um jogo de futebol, sob seu aspecto técnico, mas o comportamento das pessoas que se envolveram nessa disputa. Que nem foi uma disputa, mas uma entrega. Porque só um time jogou, justamente o que venceu, e o resultado só poderia ser o que deu. Quem determina e busca, alcança, mesmo com fatores desfavoráveis, e quem já entra em campo com a mente pré-estabelecida de que não precisa fazer esforço, ou temendo a derrota, mesmo com fatores favoráveis, obtém o que mentalmente visualizou.
O time lusitano, que nunca figurou entre os grandes do futebol paulista, porque sempre mentalizou-se menor, este ano desejou chegar à disputa final, e no primeiro jogo da decisão venceu por 2x0, em seus domínios. No segundo, fora de casa, precisava, aparentemente, manter um 0x0 ou perder de até 1x0, e seria campeão. Só aparentemente, porque o de que precisava mesmo era não encolher-se, não acomodar-se, mas fazer gol, que esta é a função de quem se pensa jogador de futebol. Por desprezo a essa lei aconteceu o que infalivelmente tinha que acontecer. O time desperdiçou 85 valiosos minutos de jogo e só quando viu perder-se o título, com os 2x0 do adversário, saiu em desespero tentando fazer em 5 o que não buscou fazer em 85. Jogou fora a oportunidade que lhe fôra concedida.
Quantos, na vida, também agem da mesma maneira! Desperdiçam valiosas chances, porque, jogando com certas vantagens não se esforçam por aumentar o score, enquanto podem.
Não estamos pretendendo diminuir o valor da conquista do time vencedor, mas salientar um fenômeno que se repete com tanta frequência, no futebol, e sempre igual. Quanto um time joga pelo empate, e não se empenha para mudar esse quadro (o placar do empate), perde por 1x0; quando joga até pela derrota de 1x0, como aconteceu domingo, e não se esforça para alterar esse placar, perde por 2x0. Jogar na retranca é praticar o anti-futebol, ou o futebol nenhum. Quem joga recuado corre o risco de sofrer falta próximo da grande área, corre o risco de escanteio, de pênalti, de gol.
Se jogamos no quintal, a bola não chega ao jardim. Se ocultamos a vitrina de nossas potencialidades no porão, não alcançaremos as vistas de quem está lá na frente, onde as coisas acontecem. O gol que queremos marcar só se concretizará se corrermos na direção da meta. Se ficamos deitados à sombra do comodismo os mais ligeiros nos atropelarão.
O jogo de domingo passado foi bem um demonstrativo desta realidade.
O homem movido pela necessidade e pela vontade supera seus limites conhecidos, mas também é capaz de anular-se pela inércia mental, como esse time da Portuguesa se anulou, em Porto Alegre. Por que os jogadores já não eram os mesmos que jogaram em São Paulo, e venceram por 2x0? Porque no primeiro jogo, quiseram; no segundo, não. Apoiou-se o time já quase-campeão na ilusão de que não precisava. Se tivesse entrado em campo com a mente programada para fazer um gol, o teria feito, e isto lhe valeria um título nunca antes obtido, e que agora, para acontecer de novo - a persistir a mesma mentalidade - só daqui a cinquenta anos!
Um jogador de futebol não joga com pés, pernas e cabeça (aí entendida a que cabeceia), mas com a mente. Não são aqueles membros do corpo que fazem gol, mas a mente. Ela os comanda, eles obedecem. Pelé chegou aonde chegou porque tinha uma programação mental. Antes de cada jogo ele dobrava a toalha em quatro, cobria com ela os olhos e desenhava mentalmente todas as situações da partida, inclusive os gols. Era um atacante não porque jogava com a camisa 10, mas a vestia justamente porque era um atacante. Por isso foi sempre dez! Pelé não gostava de jogar retrancado, nem permitia isto com seus companheiros. Até porque ele se encarregava de manter a bola sempre lá adiante...
Jogar futebol é bafejar o rosto do goleiro adversário.
Viver a vida é sentir o hálito de cada novo dia.
Técnicos e jogadores são indecifráveis: quando vão jogar no campo do adversário já se predispõem a que será difícil ganhar, e quando a imprensa os entrevista eles dizem que vão tentar cavar um empate, trazer um pontinho prá casa. Por que não cavar uma vitória e trazer três pontos?! Se eles já decretam que só querem um pontinho, trarão, no máximo, esse pontinho, mas no mais das vezes nenhum, se jogam com essa cabeça. Perdem, e no jogo seguinte declaram que vão correr atrás do prejuízo. E com toda certeza alcançarão o prejuízo, já que estão correndo atrás dele... Por que não correr atrás do lucro?! Isto vale para a Portuguesa, para o Corintians, para o Londrina, que no final dos campeonatos ficam sempre correndo atrás do prejuízo. Haja coração!
Se Pedro Álvares Cabral, que era capitão de outra esquadra portuguesa (um destemido time de 13), navegasse em redemoinho em seus próprios costados não teria descoberto as índias bronzeadas das terras brasileiras!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





