A filosofia do papel de bala
Dia desses, andando de ônibus por Londrina, observava uma jovem moça que mexia impacientemente na sua bolsa. Instantes depois saía de lá um enorme bolo de papéis de bala que ela havia deixado ali e que, aproveitando o tempo livre, decidira retirar. Essa situação, por mais simples que pareça, pode exemplificar alguns dos maiores problemas enfrentados hoje no Brasil.
Muitos de nós temos o péssimo hábito de, ao descascar uma bala e não observar uma lixeira por perto, soltar a embalagem por aí e seguir em frente. As justificativas são muitas: "não faz diferença", "é só um papel de bala", "ninguém vai ver", "culpa do prefeito que não distribuiu lixeiras pela cidade". Essas desculpas proferidas por muitos e aceitas por tantos outros podem explicar o contexto atual no Brasil, com um baixíssimo nível político e em um cenário de discursos extremistas impulsionado principalmente pelas redes sociais.
É muito comum o brasileiro que vê o seu voto como um mero embrulho descartável. Com a descrença generalizada na classe política, insiste em pensar que as coisas não vão mudar e utiliza-se da mesma atitude quando escolhe um candidato qualquer e joga o seu voto fora, fingindo que nada aconteceu e terceirizando a responsabilidade pela sua falta de cidadania ("nenhum desses políticos presta mesmo"). Às vezes diz cobrar soluções, bate panela, reclama até não poder mais, mas não consegue sequer dar o exemplo. Políticos não são meros reflexos de quem os elegeu?
Além disso, ultimamente temos visto muitas manifestações de ódio que ganham destaque especialmente por conta da internet e se alastram deixando um rastro de intolerância e irracionalidade. Testemunharemos a votação na Câmara dos Deputados do polêmico projeto da diminuição da maioridade penal, uma questão marcada por extremismos e que é apenas uma consequência de um problema maior. Barbaridades são ditas, preconceitos voltam à cena e nada contribui para um ambiente saudável de discussão.
Vale destacar ainda a recente campanha pelo boicote dos produtos de uma empresa de cosméticos por conta da veiculação de uma propaganda de 30 segundos na TV na qual há, além da presença de um casal heterossexual, a representação de casais homossexuais comemorando o Dia dos Namorados. Confunde-se muito a liberdade de expressão com o direito de ofender o outro; em vários momentos utiliza-se discursos prontos para "defender" pontos de vista. Na maior parte das vezes solta-se o verbo e pouco tenta-se enxergar e ouvir o outro lado, uma espécie de cegueira e surdez crônica.
A mulher do ônibus poderia ter simplesmente largado as embalagens no chão a cada vez que consumia as balas, contudo, ela tinha a consciência do impacto que teria gerado por aquela ação. Falta o entendimento de que um único lixo deixado pelas ruas, um único voto de confiança depositado na pessoa errada e uma única mensagem de ódio dita sem a devida reflexão têm força quando reunidos com os de todos os outros indivíduos. Nossas palavras, ações e opiniões têm grande impacto porque é o seu conjunto que determina como a sociedade age e pensa.
Hoje enfrentamos uma turbulência tanto em nível estadual, quanto federal e a responsabilidade é, sim, de todos nós que jogamos o papel de bala por aí e não pensamos nas reais consequências que aquilo trará no futuro. É interessante lembrar que depois, ao observarmos, por exemplo, os índices nacionais e internacionais relativos à nossa economia e educação, não adianta reclamar e tentar furar a enorme fila a nossa frente.
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