A pergunta é pertinente: qual é a relevância do nascimento da primeira filha de Xuxa Meneghel para a vida do País? Para a Rede Globo, que alavancou a ex-modelo nascida no Rio Grande do Sul e criada na Zona Norte do Rio e a transformou durante muitos anos em rainha dos baixinhos, parece ser enorme.
A julgar pela cobertura de luxo e pelo espaço dedicado ao nascimento de Sasha durante toda a terça-feira passada pela emissora, sua relevância é maior até do que a privatização do Sistema Telebrás, a maior da história do País, ou do que as eleições de outubro. O Jornal Nacional dedicou exatos dez minutos da edição de terça ao ‘‘grande’’ acontecimento do dia - na sua avaliação - deixando pouco mais de quatro minutos para o leilão da Telebrás. Sempre em clima de espetáculo.
Desde o início, a gravidez de Xuxa, aliás, foi tratada sob atmosfera circense, com direito a aparições (exibições?) nos mais diversos programas da emissora que a ajudou a construir sua fortuna. Luciano Szafir, o pai, sempre posando de coadjuvante nessa epopéia, saiu do anonimato. Já seus parentes entraram no noticiário protagonizando inusitado bate-boca com a apresentadora depois que Xuxa declarou que todos na família Szafir eram feios. Com exceção de Luciano, é claro.
É inegável a popularidade da ex-rainha dos baixinhos em todo o País, assim como é inquestionável o fascínio dos simples mortais pelos ricos e famosos. Isso acontece no mundo inteiro. Mas o superdimensionamento dado a um fato banal e corriqueiro como o nascimento de um bebê - mesmo que a mãe seja uma das principais estrelas da emissora em que trabalha - ultrapassa os limites do bom senso. É artificial, patético. Vira farsa.
Infelizmente, já estamos habituados a ver a vida do País registrada pela maior emissora de TV apenas como um espetáculo, mais um programa em busca de audiência, quase que uma novela das 6 ou das 8: previsível e superficial.
É muito semelhante o tratamento ‘‘espetaculoso’’ dado aos mais diversos assuntos veiculados pela emissora: de um flagrante de violência policial numa favela paulista ao noivado de Ronaldinho e Suzana Werner; do nascimento de Sasha à morte de Leandro; da seca no Nordeste a uma eventual denúncia de compra de votos.
A propósito, o telespectador da Globo deve ignorar que estamos a pouco mais de dois meses da maior eleição da história do País, com 106 milhões de eleitores. Sem muita reflexão, é possível enumerar três motivos para justificar essa omissão: a rigidez da lei eleitoral, que exige tratamento igualitário para todos os candidatos e está preocupando as emissoras de rádio e televisão; a ausência de assuntos quentes na campanha; a falta de importância do pleito, aparentemente menos relevante do que o nascimento da filha da Xuxa.
Em compensação, detemos o direito diário de ter um circo permanentemente dentro de casa. Resta o consolo de que se pode mudar de canal. Ou desligar a televisão. Ou é indispensável saber quando mãe e filha voltarão para casa?
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

mockup