A FILA DA MORTE
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 2003
Andréa Bordinhão<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Utilizar o sistema público de saúde no Brasil não é uma tarefa fácil. São longas filas, falta de vagas, falta de médicos e remédios... Enfim, uma série de transtornos que quem está doente não deveria, e muitas vezes nem pode, enfrentar. Nas últimas semanas parte desse colapso veio à tona no Paraná com a morte de 13 pessoas em junho por falta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Ponta Grossa. Dezesseis pacientes estavam na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) à espera de um leito. Isso significa uma taxa de óbito de 81% por falta de vagas nas UTIs da 3 Regional de Saúde do Estado, que atende a população de 11 municípios. Em julho, dos 13 pacientes que estiveram na fila da UTI, sete morreram. Desde janeiro, 39 pessoas morreram na regional pela mesma razão.
A Folha fez um levantamento informal do número de mortes ocasionadas pela falta de leitos de UTI e descobriu que pelo menos 120 pessoas morreram de janeiro a julho de 2003 em todo o Paraná. O levantamento foi feito na última sexta-feira junto às 22 regionais de Saúde e algumas centrais de leitos. Os números não são totais porque a 17 Regional, que atende Londrina e mais 18 cidades, só tinha os dados referentes ao mês de julho (16 mortes).
É claro que o problema da falta de leitos de UTIs não é novo. Tanto que no ano passado morreram 93 pessoas por falta deles só em Ponta Grossa. Contudo, é para lá que vão os pacientes que realmente não podem esperar pelo tratamento. Portanto, é um setor onde é inadmissível filas. No Paraná, o déficit atual desses leitos é de 233. Das 22 regionais de Saúde, 17 estão sofrendo com esse problema. Os piores índices estão justamente na regional de Ponta Grossa, com uma deficiência de 35 leitos; na de Campo Mourão, onde faltam 24 unidades e na de Paranaguá e Jacarezinho, onde há carência de 21 leitos. Esses dados são os oficiais da Secretaria de Estado de Saúde, que afirma já ter pedido ao Ministério da Saúde a implantação de 335 novos leitos no Estado ainda esse ano. Porém, em Londrina, que é uma das regionais que não aparece como deficitária de UTIs, morreram cinco pessoas na fila nas últimas duas semanas.
A causa de todo esse problema é orçamentária. Hospitais como o Municipal ou a Santa Casa de Misericórdia, ambos de Ponta Grossa, possuem equipamentos, mas falta verba para colocar as unidades em funcionamento. ''Temos seis semi-utis. Lá nós podemos monitorar a vida de pacientes que estão na fila, mas não dar todo o tratamento que eles precisam'', explica o médico e diretor de Atenção à Saúde do Hospital Muncipal, Amílcar Ruani. De acordo com os hospitais, o valor que Sistema Único de Saúde (SUS) paga para a manutenção das UTIs é baixo. Uma comparação feita pela diretoria administrativa da Santa Casa mostra que uma unidade custa cerca de R$ 1,5 mil por quatro dias. O SUS paga de R$ 481,00 a R$ 855,00 por esse período, dependendo do nível de complexidade do leito.
Para uma família que está com um ente precisando de atendimento não há razão que justifique o sofrimento. ''Meu pai ficou quatro dias na fila sofrendo de insuficiência respiratória. Foi agoniante. E agora, por causa da espera por atendimento, ele está demorando mais para se recuperar'', conta Maria Anita Ribeiro Moreira, filha do paciente Miguel do Vale Ribeiro Neto, 58 anos. Mesmo tendo passado por dias difíceis, Maria Anita considera seu pai um felizardo. ''Temos que agradecer. Tem tanto gente que não consegue uma vaga a tempo.''
Na hora do desespero, muitas pessoas acabam culpando o médico pela situação. O presidente do Conselho Regional de Medicina, Luiz Sallim, diz que o ideal é que os profissionais deixem claro para a família que estão fazendo tudo que é possível. E em uma situação de caos como essa, não há mesmo outra forma de evitar sair como o vilão da história. Maria Anita conta que o médico que tratou do seu pai foi exemplar. ''Além de cuidar bem do meu pai, ele ligava cinco vezes por dia para a Central de Leitos para tentar encaixá-lo em uma unidade.''


