O ciclo pré-eleitoral tem cinco fases, cada uma balizada por eventos próprios, mas todas tendo um único vértice: a crise de energia. O grande eleitor, tanto da situação como da oposição, será FHC. O trunfo para os correligionários será o sucesso na administração da crise; para os adversários, o fracasso.
Hoje, seguramente, dois candidatos oposicionistas iriam para o segundo turno. A um ano e quatro meses das eleições, monumental onda de indignação toma conta da sociedade. Diferentemente do que se sentia nos anos pré-eleitorais de 1993 e 1997, a perspectiva de passagem do poder para as oposições, particularmente para o PT, é mais efetiva, na esteira da convicção generalizada de que a mudança de rumos se faz necessária e já é um processo amadurecido.
O primeiro grande evento será a data da convenção do PMDB, 9 de setembro. Ali, será consagrada a tese da candidatura própria pela aprovação consensual das duas facções. Mas não será fácil indicar, já, o nome do candidato peemedebista ao Planalto. Por isso, a candidatura do governador Itamar Franco à presidência do partido, se confirmada, ampliará o racha no PMDB.
É possível que se chegue a um nome de consenso – o deputado Michel Temer, de São Paulo – que, unindo as alas, teria como missão trabalhar a saída do partido do governo. Temer não seria contra Itamar. A equação sucesso/fracasso na administração da crise de energia e a costura feita pelos governadores do PMDB serão fatores decisivos para os rumos partidários.
O segundo evento será no dia 5 de outubro, quando os parlamentares definirão seus rumos: permanecer nos atuais partidos ou mudar de casa. Mais uma vez, quem estará comandando este processo será FHC. Bem sucedido na administração da crise, evitará uma debandada geral das hostes situacionistas. A recíproca é verdadeira. A terceira fase do ciclo se abrirá no final do ano, com as pesquisas, a intensificação das articulações e o afunilamento de nomes. Não é de todo improvável a inserção de um nome novo, pré-candidato situacionista, identificado com os valores da assepsia política, respeitabilidade e autoridade. É a alternativa que o governo tem para enfrentar a tendência social de votar nas oposições.
O quarto ciclo se inicia na retomada das atividades parlamentares, com a articulação final em torno de alianças para primeiro e segundo turnos e definição dos nomes. Mais uma vez, o tom pré-eleitoral será dado pelo instrumento da administração da crise. E o quinto ciclo será aberto pelas convenções partidárias, em maio/junho. Nesse momento, serão feitas as avaliações finais para as composições, podendo se chegar a acordos do tipo Itamar-Ciro, se aquele for efetivamente o candidato do PMDB e se o ex-governador cearense continuar a tendência de queda. Não é improvável, ainda, o apoio de Tasso Jereissatti a Ciro, mesmo de maneira informal e indireta, caso o candidato tucano seja José Serra.
Grandes interrogações permanecerão: Itamar aumentará suas chances? É oportuno olhar para a rejeição a ele na última pesquisa Ibope: 50%, o maior índice, superior ao de José Serra (46%), Garotinho (42%), Ciro (37%) e Lula (32%). Garotinho continuará sua tendência de crescimento? A impressão que passa é a de uma bolha de momento, que se esvaziará mais adiante. Lula, no segundo turno, evitará a síndrome de ‘‘morrer antes de chegar à praia’’?
Diferente de outras campanhas, tudo indica que, desta feita, poderá ser aprovado pelo crivo social. Ciro vai continuar até o final e com o apoio do PTB? Serra suportará o tranco dado pela rejeição a seu nome, em função da falta de carisma e da crise da identificação com o governo de FHC? Quase 60% dos eleitores dizem que não votariam num candidato apoiado pelo presidente.
O sentimento social de indignação não passará com medidas paliativas. Se a sociedade está colaborando com o plano de racionamento, cobrará caro do governo a fatura de sua incúria e desleixo. Depois de muito apanhar e sofrer os efeitos de uma crise que começa a pesar no bolso com o aumento de alguns preços, a sociedade toma consciência de que deve dar chances a novos perfis e novas experiências. A mesmice está cansando. O povo, até que enfim, aprende a caminhar sozinho. E faz fé na profecia de Zaratustra: ‘‘Aprendi a caminhar; desde então, gosto de correr. Aprendi a voar; desde então, não preciso de que me empurrem para sair do lugar. Estou leve, vôo; agora, um deus dança dentro de mim’’. A ficha, até que enfim, caiu.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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