A ficção que virou realidade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
Sady Ricardo dos Santos 
O Senador Caxias, personagem da novela O Rei do Gado, da Rede Globo, denunciava a morosidade e o pouco caso de alguns senadores do Congresso Nacional em relação à necessidade e à importância da divisão da terra. A novela foi assumindo gradativamente uma posição em defesa dos sem terra, demonstrando claramente que desde o início dos tempos a terra realmente não tinha nenhum dono, a não ser Aquele, realmente responsável pela razão de todas as coisas.
Ficou demonstrando, durante todo o percurso do Senador Caxias, que a luta pela terra foi, é, e sempre será aguerrida. Aqueles que dela tomaram posse, mesmo que não produzindo sequer um pé de alface, não querem de forma alguma abrir mão de seus privilégios.
Se por ventura, um belo dia, extraterrestres pousassem neste País e observassem os sem-terra, os sem-casa, os com-fome e aqueles que se amontoam em malocas nos morros, conhecidas como favelas, após decolarem em seus artefatos voadores rumo aos seus planetas com certeza em lá chegando iriam certamente comentar: Francamente não entendemos nada do que acontece lá na Terra e principalmente num País chamado Brasil. Lá existe terra à vontade. Porém o que estranhamos é que grande parte daquelas terras está cercada e as pessoas que ficam de fora estão morrendo de fome. A maioria dos que estão nas terras, pelo lado de dentro das cercas, não plantam nada e não deixam que ninguém plante. Francamente não entendemos por que eles se destroem daquela maneira... diriam os extraterrestres.
Exatamente como aqueles extraterrestres pensamos nós. Em nossa profissão de agrônomo, sempre tentamos fazer a terra produzir mais e melhor, analisando sua composição e deficiências, estudando sua fertilização, plantio, combate as pragas e doenças das lavouras, emfim, nos dedicando a fazê-la produzir alimentos da melhor forma possível.
A Rede Globo de Televisão percebeu exatamente o sentido da fábula dos extraterrestres, lançando na novela O Rei do Gado um Senador com S maiúsculo. Um Senador Caxias, com idéias puras e poderosas, que caracterizam o grande destino daqueles que realmente se interessam pela qualidade de vida da humanidade.
Entretanto, como sempre tem acontecido desde que o mundo é mundo, todos aqueles que aparecem com alguma idéia diferente, que possa modificar alguma coisa que atinja os interesses de poderosos, é sumariamente eliminado. Vide Cristo.
A Rede Globo de Televisão foi entretanto muito mais longe. Sentindo em suas antenas toda a força de uma energia extraterrestre, lançou em todo o Brasil através de seus poderosos trasmissores a imagem do assassinato do Senador Caxias pelas mãos gananciosas dos donos dos latifúndios improdutivos. Foi realmente mais longe, quando em diversos trechos da novela reuniu a ficção com aspectos atuais da vida real deste País, culminando com gravação do Senador Caxias morto, num capítulo de extrema comoção, sendo velado no Congresso Nacional.
Realidade ou não, o que vimos foi uma nova postura da Rede Globo de Televisão, transformando uma simples novela num libelo inovador, em favor da luta dos sem-terra em prol de uma autêntica reforma agrária, digna dos nossos maiores anseios, revolucionando toda uma estrutura latifundiária improdutiva, em benefício daqueles que regando a terra com o suor dos seus rostos fazem brotar os trigais que alimentam o corpo e nutrem o espírito de todos nós.
Realmente podemos dizer que a Rede Globo de Televisão inaugurou, talvez pela primeira vez na história mundial, uma forma inovadora ou mesmo uma nova dimensão em termos de telenovela, permeando a ficção com a realidade, com uma repercussão de grande importância, não só nos meios artísticos, como em todo sistema político e sócio-econômico nacional.


