A festa de Neymar...
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
João dos Santos Gomes Filho 
Leio, n’algum sítio, que Neymar se prepara para receber quinhentos convidados em sua casa de praia em Mangaratiba/RJ, a fim de celebrar a passagem do ano. Isso sob o signo da peste e em plena efervescência da segunda onda pandêmica que nos assola e já contabiliza, só no Brasil, mais de cento e noventa mil mortos...
É um tapa na cara dos que estão se policiando e tomando todos os cuidados para evitar a proliferação do vírus e, como de resto, segue o roteio surrado de nossa absoluta falta de empatia...
Afinal, qual o potencial transmissível de um evento dessa magnitude? Em que mundo vivem essas quinhentas pessoas? Não poderia ficar em Paris o Neymar, ao menos, neste período pandêmico?
Paris deve ser desagradável para Neymar. Penso no Café de Paris, na rive gauche, no Louvre, no d’Orsay e em todo vinho possível de se tomar (Borgonha e Bordeaux para não misturar), com muito confit de canard e não entendo muito a vida...
Nesta medida, os franceses são pródigos em cultuar a história (o museu do Holocausto talvez dê uma dimensão a essa extrema direita ignóbil que nega a ciência e crê em terra plana) e há por lá tantos museus que quase não se pode vê-los em uma só semana – não como se deve visitar um museu, sem pressa e com curiosidade de sabença...
E os convidados? Qual a postura dessa gente? Rumará para a festa conhecendo todos os riscos envolvidos na aglomeração que esparrama o vírus?
Parece que o mundo parou e quem se movimenta são apenas os que não se importam com o próximo. Zero de empatia no jogo da vida, onde perdemos de goleada para o consumo desenfreado e para um flerte hedônico que sustenta, no egoísmo de nosso prazer, a exposição dos menos favorecidos pelo destino.
Neymar não pariu o vírus – é fato; mas sua festa potencializa de forma muito eficaz a propagação da peste, servindo de vetor da maledicência que nos assola nesta quadra de nossa existência...
É como se seguíssemos um roteiro suado, adornado pelas cores do nosso prazer e nada mais. E o outro? O outro que se vire, quero mais é a festa, quero mais é meu prazer...
Difícil estabelecer parâmetros de segurança na contratação de um protocolo de conduta quando há exemplos como o de Neymar que, não satisfeito em se aglomerar, aglomera consigo quinhentos convidados...
Uma tragédia anunciada.
Todavia, enquanto aguardamos o saldo da estupidez dos sem noção, o país segue padecendo um prumo de racionalidade mínima na discussão das políticas sanitárias e posológicas que o vírus demanda.
Há tanta disputa política entorno do combate ao coronavírus que não parece razoável imaginar que vamos sair dessa situação como entramos – antes o contrário; a vida por aqui parece tomar um rumo bem distinto...
Tomo em exemplo meus filhos. Estão se cuidando ao extremo. Levam uma rotina severa. No ano que está indo embora não saíram de casa para qualquer festa, balada, bar, restaurante. Estão trabalhando em nosso escritório e em nossa casa. Minha mulher segue esta mesma catilinária e nós outros procuramos fazer nossa parte num mundo que oscila entre descuido e negação...
Contrair o vírus não é privilégio nem responsabilidade de ninguém, evitar situações de risco sim. E o que gera mais risco de transmissão do que uma festa para quinhentas pessoas?
Qual a projeção dessa desídia para com a vida?
Neymar poderia ser menos Neymar, ao menos neste instante particularmente dramático de nossas vidas e, assim, dar um exemplo saudável para toda uma legião de jovens e de crianças que o adoram, como grande jogador de bola que ele é.
Mas não. Tudo em vão. O ídolo é de barro, as ilusões vêm a reboque e a hora do contágio se pronuncia. Há um severo desequilíbrio no tear da vida toda vez que a humanidade desafia o razoável, negando a ciência...
É a leitura possível para um evento tão grandioso. É a tragédia do anzol à espera do vírus, em uma ceva de quinhentos desavisados que sequer imaginam quão covarde e mesquinha é a sua opção.
Tristes e descuidados trópicos. Saudade Pai.
João dos Santos Gomes Filho, advogado


