A festa continua
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de março de 2005
Pedro Paulo Nolasco 
Animados pelo exemplo da Presidência da República, os magistrados trataram de não ficar atrás: renovaram sua frota de veículos. E o fizeram bem à semelhança do exemplo que tiveram: todos os carros importados.
Buscando entender os acontecimentos, salta logos aos olhos uma exuberante manifestação de nacionalismo e racionalidade nas atitudes havidas. Assim como não temos fábrica de aviões, também não temos fábrica de automóveis. E como, apesar destes óbices, somos uma nação rica, de um povo poderoso que esbanja recursos, dono de uma capacidade aquisitiva de fazer inveja às nações mais desenvolvidas do mundo, temos sim que demonstrar a todos os países o quão grande é a nossa pujança. E tome compra de avião e carros importados para os nossos poderes.
E o povo? Ora, um povo rico que se dá ao luxo de trabalhar três meses por ano com a renda toda só para o governo, quer mesmo é que tal governo e seus poderes ostentem cada vez mais a sua riqueza que, como não podia deixar de ser, é um reflexo natural da riqueza deste próprio povo. Ou não é?
Ironias à parte, está sobejamente demonstrado, desde há muito, que nossas autoridades não costumam primar pelo comedimento nem pela sensatez. Também sensibilidade lhes falta para perceber que existe um descompasso enorme entre o modus vivendi deles - criado e sustentado artificialmente à custa do sacrifício do povo - e o modo de viver deste próprio povo, que é cheio de apertos e restrições sempre crescentes.
Em outras palavras, enquanto nós, povo que trabalha e paga impostos sem fim, ficamos cada vez mais limitados na capacidade de viver com algum conforto, a despeito de trabalharmos cada vez mais, eles, integrantes do poder vigente, cada vez mais se permitem a um luxo ostentatório, desnecessário e descabido num país de tão grandes desníveis sociais. É revoltante o que se assiste, cotidianamente, neste sentido.
É preciso dar fim a isso. É necessário que se cobre comedimento e pudor dessas autoridades, lembrando que aquilo que é legal nem sempre será ético ou aconselhável. O cidadão que trabalha precisa ser respeitado, e não afrontado pela ostentação descabida e acintosa de privilégios e regalias incompatíveis com a realidade humilde e pobre da nossa nação.
Parem senhores! Respeitem o povo trabalhador que se exaure, diuturnamente, e que ao chegar no fim do mês mal lhe sobra para pagar as contas. É ele que sustenta este país enquanto os senhores o desfrutam. Mais respeito com quem trabalha dia-a-dia, cheio de ônus que os senhores lhes impõem, e no final da jornada constata que pouco ou nada lhe resta, tamanha a sanha com que os senhores desperdiçam os recursos providos por ele. Parem! Respeitem o homem assalariado agonizante! Respeitem o cidadão da classe média moribunda!
PEDRO PAULO NOLASCO é médico aposentado em Londrina
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