A feminização da política
A solução provisória do problema das exigências dos marqueteiros e das cliques partidárias, na escolha da vice-presidenciável de José Serra, candidato do PSDB à eleição presidencial, foi um contra-senso tão chocante que até o presidente Fernando Henrique Cardoso precisou declarar não ter nada a ver com tal assunto. Que, a rigor, só vai ser resolvido mesmo na convenção do PMDB, em 15 de junho.
Raiou pela desfaçatez a indicação da deputada peemedebista Rita Camata, loura, de olhos azuis, filha de italianos, capixaba, ainda jovem e bonita, mas sem expressão politica e eleitoral, comparada sua bagagem, nesses tópicos, com a do candidato preterido, o senador, ex-governador e ex-ministro Pedro Simon, também do PMDB, um heptagenário grisalho, sem beleza, gaúcho e filho de libaneses.
A tese (justíssima) da valorização política da mulher nas eleições evidenciou-se, porém, hipócrita, quando vista a inclusão de Rita na chapa de Serra à luz das práticas das cúpulas dos dois partidos neofeministas. A marquetagem lhes impôs tal escolha e eles falam em valorizar a mulher brasileira, achando que a mentira os fará vitoriosos nas urnas. Mas, vejam só: as direções nacionais do PSDB e do PMDB têm vinte cargos, cada. Os postos concedidos às mulheres são dois, naquele partido, e um só, nesse último, todos os três, no entanto, secundários e decorativos.
Tais partidos aprovaram lei pela qual cada agremiação deve reservar 30% de suas chapas eleitorais para candidatas do sexo feminino. Evidentemente, nem sempre os eleitores elegem essa porcentagem de mulheres nos partidos. Mas, nessa hipótese, para os postos de comando partidário, as grandes agremiações poderiam, e deveriam, em respeito à idéia de valorizar as mulheres, conceder-lhes 30% deles.
O PMDB e o PSDB têm bancadas femininas em número bastante para praticar, internamente, a valorização política da mulher, que a lei exige no âmbito externo. Por que não colocá-las em cargos partidários de comando real, em proporções justas? O contrário é só lorota, como no episódio da vice-presidência de Serra.
Em termos de preparo, ou da idéia preconceituosa de competência da qual FHC fala, mas não teve, no caso do câmbio fixo, a doce Rita não é Catarina da Rússia nem Mme. Tatcher. É uma tentativa da marquetagem de criar nova Roseana, para enfeitar a nau eleitoral de Serra, à deriva e em vias de naufrágio, segundo Sarney. Os adesistas do PMDB usaram-na para humilhar Simon, que os desafiara, ao lançar-se candidato à presidência até o fim. Em troca, esses anteciparam tal fim.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





