A felicidade do turista
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de novembro de 2002
Roberto Shinyashiki 
A desvalorização do real em relação ao dólar e ao euro, moedas dos dois principais destinos internacionais dos brasileiros, e o persistente receio de novos atentados terroristas no exterior, reforçado por mais uma ameaça de guerra no Oriente Médio, fazem com que, neste momento, os turistas brasileiros decidam viajar pelo País, e os visitantes estrangeiros, por questões de segurança, também venham para cá. É uma maravilhosa chance de incrementar uma indústria que abriga 11% de todo o mercado mundial de trabalho, movimenta mais de US$ 500 bilhões de dólares por ano, é a principal fonte de renda para 40% das nações e se inclui entre as cinco maiores atividades geradoras de riquezas em 83% dos países. O Brasil, com sua imensa dívida social e a presente retração do nível de atividades, não se pode dar ao luxo de perder oportunidades de desenvolver todo o potencial turístico, atividade que poderia, sem qualquer exagero, produzir profunda e positiva mudança socioeconômica na Nação.
Neste ano, sem dúvida os turistas chegarão. Mas a pergunta é: eles terão vontade de voltar? Falarão bem de nossas belezas? Recomendarão nossos destinos? Já escorreram pelo ralo da história outras oportunidades de incremento do setor. Dois bons (ou seriam maus?) exemplos foram Foz do Iguaçu e Manaus, que tiveram a chance de se firmar como destinos no período pré-globalização, em que os impostos de importação e as barreiras tarifárias e não-tarifárias tornavam proibitivos os preços de produtos estrangeiros. Tênis, equipamentos eletrônicos, relógios, peças de grife e outros ícones do consumo podiam ser encontradas a preços acessíveis na Zona Franca da Capital amazonense e em Ciudad del Leste, o município paraguaio vizinho da paranaense Foz do Iguaçu, onde a ausência de impostos barateava o preço dos produtos. Nessa época, o fluxo de visitantes nos dois destinos era enorme, mas não se pensou em fidelizá-los, oferecendo-lhes atendimento de alto nível e se desenvolvendo adequadamente o potencial natural, arquitetônico, cultural e de atrações, de forma a evitar a evasão, como ocorreu, quando os importados a preços baixos deixaram de ser um diferencial.
Por questões como estas, o Brasil, com todo o seu potencial, amarga desconfortável 29º lugar no ranking internacional dos países que mais recebem turistas. Especialistas buscam as mais complexas explicações para o fenômeno. Já se falou em precariedade da infra-estrutura, mas essa justificativa já não é mais válida, pois nos últimos sete anos, União, Estados e iniciativa privada investiram cerca de US$ 16 bilhões no turismo.
Porém, no Brasil ainda há muito amadorismo nos distintos segmentos envolvidos com o turismo. Então você se pergunta: o que está faltando para alavancar o turismo brasileiro e colocá-lo no lugar onde ele realmente merece estar? Se já temos infra-estrutura e investimentos, é necessária e urgente a mobilização de todos os setores envolvidos. Fazer este lição de casa é urgente. Caso contrário, quando o câmbio estiver equilibrado e o cenário internacional voltar a ser propício às viagens, a exuberância natural, histórica e arquitetônica do Brasil será novamente substituída pelo conforto, bom atendimento e relação custo-benefício das nações que já perceberam há muitos anos que o turismo é fator de prosperidade, geração de empregos e justiça social. Afinal de contas, uma oportunidade nunca será perdida. Se você deixá-la passar, outro vai saber aproveitá-la.
ROBERTO SHINYASHIKI é médico psiquiatra, com pós-graduação em Administração de Empresas (MBA USP)


