A favor do pessimismo - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de novembro de 1997
J. Roberto Whitaker Penteado 
O programa Roda-Viva da TV Cultura apresentou uma deliciosa entrevista com José Saramago. Com a paciência dos verdadeiros filósofos, o escritor português conseguiu dar respostas inteligentes até às mais abstrusas questões dos seus interlocutores. Numa delas, explicou porque se considerava um pessimista e defendeu sua posição: os otimistas acreditam sempre que as coisas vão melhorar; os pessimistas, não. Portanto, só os pessimistas contribuem para modificar o que está errado.
Senti-me, assim, estimulado no meu papel jornalístico de reincidente pessimista. Não consegui compartilhar das lágrimas de Maria da Conceição Tavares quando o presidente Sarney promulgou seu Plano Cruzado com fins calhordamente eleitoreiros. Achei que Collor e sua entourage estavam apenas malucos, quando sequestraram as poupanças dos aposentados e das viúvas para matar o tigre da inflação com um tiro só. E, quando FHC, ainda ministro, implantou o Real, escreví um longo artigo (publicado na revista Marketing),O Plano e a Realidade, que foi tema de uma palestra para um congresso de marketing, em Salvador, onde fui chamado - apropriadamente - de pessimista.
Na ocasião - em 1994 - baseando-me em análises de The Economist, fazia coro com uma absoluta minoria de jornalistas economicos que alertavam: a mudança do padrão monetário e sua paridade em relação ao dólar eram apenas o início de um verdadeiro projeto de estabilização para o país. Este projeto - que continua válido na teoria, pois não foi posto em prática - passava por muitas correções indispensáveis por parte do governo e algumas mudanças de (maus) hábitos do lado do setor privado.
Ao governo, caberia: (1) só emitir moeda guardando um percentual fixo em relação ao PIB; (2) cortar imediatamente as despesas supérfluas ou inúteis (que passavam por medidas severas em relação ao empreguismo, à corrupção e a tomada de empréstimos para financiar o déficit oficial, tanto no mercado interno como no externo); (3) privatizar as empresas estatais, começando pelas que davam prejuizo; (4) iniciar, para valer, a reforma administrativa do Estado; (5) iniciar, para valer também, a reforma do viciado processo de representação política herdado da República Velha - que continua sendo fonte de praticamente todos os problemas anteriores.
Aos empresários, caberia cultivar a competência, através do binômio qualidade-produtividade e combater o vício de obter ganhos em cima do protecionismo governamental, contribuindo para diminuir ou eliminar o pernicioso custo Brasil.
Nós, os poucos pessimistas, também alertávamos para o risco que representava a manutenção artificial da taxa de câmbio graças ao ingresso generoso dos capitais externos safados que vinham inflacionar o pregão das bolsas - e que partem, agora, apavorados pelas impudentes especulações asiáticas...
Através dessa retrovisão, também fica perfeitamente claro que o pacote atual - que tem, mais uma vez, o objetivo de transferir recursos do setor privado para o setor público - não passa de uma tentativa de vedar a rachadura no dique mal-construido com um band-aid, na esperança de que possa colar até a próxima eleição.
Não tenho dúvidas de que os empresários brasileiros foram e são capazes de assumir a sua parte. Preocupa-me, contudo, a viabilidade do governo - qualquer governo - iniciar e manter o conjunto de medidas necessárias e inadiáveis para levar adiante um projeto que não apenas acabe com a inflação - que é sintoma - mas dê solução aos problemas causais que impedem o Brasil de assumir seu lugar entre as nações prósperas (e sérias) do mundo.
É nisso que os pessimistas contribuem: porque não só relembram, com o chatinho eu não disse?, mas, sobretudo porque insistem em continuar dizendo.


