A fatalidade de ser jovem
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de julho de 1997
Fernando Ribas Carli 
Há uma semana, no Brasil, um dos mais festejados profetas do capitalismo contemporâneo, Lester Thurow, fez uma previsão que poderia ser qualificada de catastrófica pelos PhDs do Planalto: Se o Brasil quiser um dia ter a pretensão de entrar para o grupo dos países mais ricos, como o Japão e Estados Unidos, terá de, por cem anos consecutivos, apresentar um ritmo de crescimento econômico ininterrupto e superior ao das nações afluentes.
Além de ferir vaidade flamejantes de governantes que já se imaginam sentados na mesa dos grandes, Thurow ainda deu mais uma vergastada nos neoliberais tupiniquins. Para alcançar êxito neste esforço secular, só com a mão visível do Estado, especialmente para garantir escola, infra-estrutura e política de acesso à tecnologia.
Cotejando as expectativas mais otimistas de crescimento - 2% a 3% ao ano - e os recursos para Educação previstos para o quadriênio do Plano Plurianual 1996-1999 que não alcançam a média histórica medíocre de 3% do PIB, podemos considerar os 100 anos de Thurow um tempo curto demais para chegar ao tão sonhado Primeiro Mundo.
Hoje, no entanto, não nos angustiam previsões seculares, que seria tarefa para várias gerações. O que nos espanta, e nos deprime na condição de brasileiros, é a constatação de que de 100 das nossas crianças que conseguem chegar à escola 73 não conseguem concluir o 1º grau. Ou que a evasão escolar no 1º grau chega em algumas regiões a 90%. Some-se a isso o número oficial (IBGE/1992) de 20 milhões de analfabetos e temos um cenário que nos distancia anos-luz da construção de uma Nação razoavelmente igualitária.
É hora, portanto, de abandonarmos expressões da moeda como globalização, primeiro mundo e outras palavras destituídas de significação para a maioria dos brasileiros e buscarmos aqueles que fazem sentido para nossa redenção como Nação: Educação, alfabetização, oportunidade para todos e, acima de tudo, uma chance para o jovem.
Uma pesquisa recente da Fipe (USP) mostra que mesmo a pequena camada da população que atingiu um bom padrão sócio-econômico se vê perplexa diante dos altos custos com a Educação, diante do desmanche total da escola pública brasileira. Os custos com a educação privada por filho, da pré-escola à universidade, podem chegar a cerca de R$ 282 mil para os que se dirigem para a área de saúde, R$ 237 mil para exatas e R$ 223 mil para humanas. isso sem computar os gastos adicionais com alimentação, moradia, transporte, etc.
A Fipe constata que para o período 90 e 91 os gastos com escola corroeram 19% do orçamento familiar. É óbvio que para 97 esse percentual será muito maior, considerando que de 90 a 96 o custo das escolas subiu 123%, acima da inflação média.
A perplexidade aumenta quando as autoridades justificam as alarmantes taxas de desemprego com a explicação de que as causas são estruturais. Ou seja, para o neoliberalismo a exclusão do mercado é obra do destino, como se o avanço tecnológico fosse uma fatalidade, não um progresso humano.
Triste encruzilhada vive o jovem nesses tempos em que se vende o mito de um mundo sem fronteiras enquanto os governantes ainda não entenderam que a modernidade se constrói com o conhecimento e não com a propaganda oficial.
Foi esta propaganda da direita francesa que levou o Partido Socialista ao poder apoiado em uma plataforma que rende aos jovens todas as prioridades. Prioridades sólidas que vão de uma reforma estrutural em todo o sistema de ensino, passando por investimento em ciência e tecnologia na casa dos 2,5 do PIB e empregos, muitos empregos, pelo menos 350 mil no serviço público e 350 mil na iniciativa privada, sempre com preferência para quem procura pela primeira vez o mercado de trabalho.
Nossas carências são muito maiores. Primeiro em qualificação dos nossos jovens, onde tudo há por fazer, depois em oferta de emprego. Pesquisa recente feita na Universidade Federal de Minas Gerais indica que o grupo etário de 15 a 24 anos apresenta potencial de crescimento anual de 2% da oferta de trabalho na década de 90. Esse grupo é o que mais se submete ao mercado informal, sem carteira, além de ser o maior contingente do desemprego aberto. As causas são, naturalmente, óbvias: deficiências no ensino fundamental e secundário, repetência, evasão, etc. Enfim, um círculo vicioso cruel, desumano, padrasto da esperança.
Reverter este quadro é uma missão política ímpar. E é para todos os brasileiros. A começar pelos empresários que tanto clamam por reformas. Por que, então, não começar pela grande e consensual reforma, colocando Educação acima de todos os orçamentos, envolvendo governantes e a elite dirigente do País. Esta é a única reforma que pode encurtar o caminho da história para a construção de um país mais rico, justo e igualitário.
E aos jovens deixar de lhes vender o mito da esperança para entregar-lhes o aqui-agora, a oportunidade de participar, como sujeito, da construção de seu próprio futuro.


