A farsa e o senso comum - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de maio de 1998
Gaudêncio Torquato 
Que o Estado é um palco, onde os atores políticos desfilam das mais competentes às mais capengas qualidades de representação, isso já sabemos. Que a farsa seja, frequentemente, o fio condutor das tramas, também isso é fato na montagem dos espetáculos. O que parece uma extravagância é perenizar a farsa, torná-la o eixo permanente das histórias. Infelizmente, o espetáculo brasileiro é um festival de farsas. Cultiva-se o ilusionismo, foge-se do senso comum - o fio que nos liga à realidade - coloca-se o perfunctório no lugar no essencial, faz-se o apanágio da mesquinharia, formam-se ondas e cataclismos de momentos, na esteira de uma memória que vai apagando os grandes rastros da civilização.
O mosquito da dengue, esse bichinho que está prostrando o país, cede lugar à fungos e bactérias da estação. Um plano de envergadura para combater antigas e novas doenças e uma corrente de mobilização nacional pela saúde, com metas, estratégias, meios e recursos tornam-se coisas menores diante da logotipia fotográfica oferecida pela visita de apresentação do mosquito ao ministro José Serra.
E a farsa continua. O ministro do Trabalho, Amodeo, não vê crise de desemprego, não tem amigo desempregado e, pior, não conhece nenhum desempregado. Mora no céu. O contingente de 1,6 milhão de desempregados na Grande São Paulo é, apenas, um detalhe. Aliás, as massas assoladas pela seca, que já está queimando barrigas de milhões de nordestinos, são também um detalhe. Coisa do El Nino. Os mortos e a vítimas do desabamento do Palace II, no Rio, do desabamento do shopping, em Osasco, do acidente com o avião da TAM, em São Paulo, vão se transformando em registros, meras folhas apagadas.
As atividades docentes nas Universidades federais estão paralisadas. Nunca o país teve tantos professores com a caneta na mão, depois de terem abandonado o giz e a lousa: Fernando Henrique, Ruth Cardoso, Francisco Weffort, José Serra, Bresser Pereira, Pedro Malan, Paulo Paiva, Paulo Renato - ex-Reitor -, Mendonça de Barros, Israel Vargas, Edward Amodeo. Esquecem que o salário de um professor, com curso de especialização, iniciando a carreira, está em torno de R$ 500,00. A criminalidade aumenta em todos os recantos. Em São Paulo, começa a crescer a indústria dos sequestros, que a mídia, por razões compreensíveis, deixa de noticiar.
As montagens e as peças se sucedem, maquiadas pelas cores da TV, e até o grotesco vira comédia. Aplaudimos, em cena aberta, um desfile de aberrações na passarela dos horrores. Tudo para satisfazer a nossa gastronomia dos olhos. A violência já não provoca mais dor. Enquanto isso, nossos governantes dão lições de pensar grande, falando sobre ética da responsabilidade, proferindo lições de humanismo para as grandes Nações. Querem um exemplo? O acordo para repatriamento dos sequestradores do empresário Abílio Diniz. Pode ser legal, até porque foi aprovado pelo Congresso em 92. A questão é da legitimidade e da oportunidade. Com tantas catástrofes, é para se pensar nisso, agora? Que se pode dizer de uma Nação que olha mais fora do que para dentro? Pode-se exigir civismo de um povo tão submetido à descrença nas instituições?


