A fama de alienado ainda vale para o brasileiro?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Folha de Londrina 
O que as pessoas sabem sobre a realidade do país onde vivem? Periodicamente, o Ipsos, um instituto de pesquisa e inteligência inglês, divulga estudo realizado em vários países que mostra a percepção que o povo tem de assuntos relacionados a criminalidade, meio ambiente, saúde, economia, religião, PIB, entre outros assuntos que fazem parte do seu dia a dia.
Em 2018, o "Índice da Percepção Equivocada", realizada em 37 países, apontou que o Brasil tinha a quinta população mais fora da realidade do mundo. Ficou atrás apenas da Tailândia, México, Turquia e Malásia.
No ano anterior, o Brasil havia ficado em segundo lugar, mostrando que houve uma pequena melhora nos últimos 12 anos. Mas está muito longe de alcançar os melhores índices, percebidos entre os moradores de Hong Kong, Nova Zelândia, Suécia, Hungria e Reino Unido.
Durante muito tempo foi senso comum a ideia de que o brasileiro é pouco interessado em assuntos importantes (como política e economia) e se interessava muito mais por carnaval, futebol e novelas.
Seria o brasileiro um povo alienado? Foi essa a pergunta que a FOLHA fez para pesquisadores em reportagem publicada na edição do último fim de semana (16 e 17), no Folha Mais. O chavão do "brasileiro alienado" ainda se aplica, mesmo depois de junho de 2013?
Para quem não se lembra, foi naquele mês que começou uma onda de protestos que ficaram conhecidos como "Manifestações de Junho" ou "Jornadas de Junho". Tudo começou com o descontentamento com o reajuste contra a tarifa de ônibus em São Paulo, de R$ 2,80 para R$ 3,00, mas cresceu como uma forma de resistência e desejo por mais investimentos em saúde, habitação, educação e transporte.
Naquele mês, as ruas que historicamente eram ocupadas pela esquerda também passaram a ser tomadas por grupos que se opunham ao PT (Partido dos Trabalhadores). E certamente, aquele junho de 2013 foi o berço das grandes mobilizações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e outras manifestações que ainda assistimos (ou vivenciamos) no território nacional.
Durante muito tempo foi senso comum a ideia de que o brasileiro é pouco interessado em assuntos importantes
Em entrevista à FOLHA, o cientista político da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Emerson Cervi disse que a ideia do brasileiro alienado, pelo menos em termos de política, já foi derrubada justamente por conta das "jornadas de junho". Segundo ele, as pesquisas mais recentes vêm apontando para um brasileiro mais bem informado.
Não é a opinião do professor de Ciência Política da UEM (Universidade Estadual de Maringá), Ednaldo Ribeiro, que apontou pesquisas internacionais mostrando que indicadores de interesse por política e participação em manifestações e protestos de rua se mantêm comparativamente baixos desde os anos 1990.
O problema é que, hoje, o engajamento está muito mais nas redes sociais e se manifesta fortemente na polarização da política. As defesas dos pontos de vista são mais emocionais que racionais. A argumentação e o posicionamento são determinados a partir das bolhas sociais, fenômenos que interferem nas opiniões pessoais.
Em tempos de pós-verdade, a alienação é um perigo à espreita em cada esquina. Ao contrário do que se pensa, muita informação vinda de qualquer lugar não ajuda a construir uma percepção real do momento. Informar-se com veículos profissionais de imprensa é o ponto de partida que fará diferença. O cidadão que sabe o seu papel na sociedade, que acompanha os momentos históricos que interferem no seu mundo não será apático politicamente e nem facilmente manipulável. Ao contrário, será uma pessoa engajada e capaz de melhorar o seu entorno.
Obrigado por acompanhar a FOLHA!


