A falta de grandes líderes
Gaudêncio Torquato
O engajamento do presidente Fernando Henrique na articulação com o Parlamento e seus constantes destemperos verbais são sinais da existência de imensos buracos negros na constelação política, abertos pela ausência de expressões de porte, quadros qualificados, pensadores e formuladores políticos de alta densidade. Não se fazem mais políticos como antigamente, costuma-se dizer. É um fato. Mas é preciso frisar que mudaram também as condições da política. Os parlamentos já não têm mais a força de antigamente, as oposições perderam parte de seu tradicional vigor, o discurso se torna muito técnico, enquanto plenários e tribunas não conseguem traduzir a liturgia e o calor dos grandes embates.
O carisma, brilho próprio e nato que serve para agigantar os perfis, também fenece sob a frieza calculista da política de resultados. As causas nacionais cedem lugar aos interesses de grupos e setores. As linguagens se aproximam. Os comportamentos se igualam. O varejo se instala na esteira do conceito da política como negócio. A política não é mais missão, é profissão. A ética ganha contornos adjetivados para servir às circunstâncias. A coragem, a audácia, o zelo e a obstinação, valores inerentes às lideranças, tornam-se escassos. O rigor na apuração de escândalos só ocorre sob o paredão de pressão da opinião pública.
Exercita-se, assim, a política de conveniências. Quando a sociedade reclama, o sistema político corta dedos para não perder os braços. Coisa de país inculto politicamente. Pois os critérios de justiça passam a ser aplicados ao sabor de circunstâncias impactantes, com o tempero das emoções, sob a batuta (legítima, cabe dizer) de multidões silenciosas, porém atentas. Os políticos - é comum ouvir - representam as partes da sociedade com seus sentimentos e representações fragmentadas. Nesse cenário, o papel do líder assume extraordinária importância, seja abrindo frentes de vanguarda, mobilizando seus contingentes, assumindo a coordenação das temáticas emergentes.
Infelizmente não se fazem mais líderes como antigamente. Basta pinçar o perfil de alguns. A liderança natural, essa que imanta os líderes com carisma e extraordinário vigor cívico, está agonizante. O que vemos aí é uma liderança artificial, construída na pajelança da troca de favores e de benesses. São líderes nomeados, eleitos com o carimbo de cima.
A mudança na ordem das coisas inverteu os métodos de escolha. Na casa, o filho mais velho já não é o mais importante. Nem o temporão pode ser o mais o querido. Vivemos o momento de relativização. Para tudo, há um depende. Uma nova identidade nasce, regida sob o signo do calculismo, do planejamento, do aproveitamento de oportunidades. Por isso, as lideranças carismáticas são raras. Só um ou outro chega ao altar da sagrada liturgia. Poucos governantes se destacam em função de feitos positivos e de uma administração correta; poucos parlamentares têm luz própria. No paiol dos líderes tradicionais, as cores da mesmice se instalaram há muitos anos, gerando um discurso que já não afeta, não entusiasma, não entra na alma. Os nomes ali expostos são os mesmos de 20, 30 anos atrás. Alguns têm expressão, mas estão dobrando a esquina de nossa história ou procurando repetir façanhas conhecidas. O Brasil está à espera de novos perfis.
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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