Muito me surpreendi com as declarações do ex-reitor dr. João Carlos Thomson na Folha de 19/04/98. Ele é contra a chapa única que disputa as eleições à Reitoria porque ‘‘empobrece a discussão sobre a Universidade e faz desaparecer a identidade política’’. O que mais me espantou foi saber, somente hoje (19/04), através da imprensa, que o ex-reitor considera o debate e o conflito importantes para o fortalecimento da instituição, seja do ponto de vista administrativo, seja do ponto de vista acadêmico. É porque quando foi reitor, não me parece que pensava assim. A impressão que tenho é que o dr. João Carlos Thomson se ressentia da falta de um Poder Moderador, do qual D. Pedro II desfrutou no seu longo reinado de 49 anos e através do qual pessoalmente conduziu toda a política imperial.
De fato, a única proposta, do ponto de vista acadêmico, que se tentou estabelecer à época foi a de uma Universidade Meritocrática, ou seja, aquela baseada no mérito acadêmico, cujo fulcro era a pura e simples titulação. Ora, esta proposta serviu, na verdade, para acobertar uma política que atendia aos interesses de uma facção áulica, sobre a qual é pertinente a discussão: governava o reitor através da facção ou a facção governava através do reitor? Esta facção compunha uma oligarquia conservadora, que o termo ‘‘emperrada’’ pode descrever, e à qual se aplicam muito bem as palavras de Joaquim Nabuco quando analisa o grupo saquarema no período imperial: ‘‘Essa oligarquia (...) tinha o espírito de desconfiança contra todas as mudanças que pudessem afetar o domínio que ela exercia. Conservadores, eles seguramente o eram (...) mas a conservação principal para eles era a do governo em suas mãos’’ (Um Estadista do Império).
Foi essa política da oligarquia - tinha horror ao termo ‘‘política’’ (quase um crime à época) - que foi estrondosa e sonoramente rejeitada nas urnas quando o prof. Jackson Proença Testa foi eleito reitor com esmagadora vitória sobre a candidata situacionista, da ex-vice reitora Luiza Deliberador. Esta vitória foi comemorada - nas palavras de um docente, cabo da chapa vencedora - como o ‘‘fim do Antigo Regime’’, tal era a aversão de muitos setores da UEL à administração do Dr. Thomson. Significativo também o fato de que o mesmo foi derrotado em seu próprio Centro.
Da administração do prof. Jackson pode-se dizer o que se pode dizer de todas: teve erros e acertos. Foi sentida, no entanto, como um período de renovação da Universidade, na qual todos aqueles que tinham boas idéias receberam apoio para colocá-las em prática. Mais do que isto, no entanto, tentou-se consultar a comunidade para formular uma Política Acadêmica Global, o que nunca havia sido feito antes quando a única política era a traçada no Gabinete (à maneira da GM - o que é bom para a GM é bom para a América. Assim, o que era bom para a oligarquia era bom para a UEL).
Além disto, durante a primeira administração do prof. Jackson houve uma ampliação da representatividade da Universidade - até mesmo o acesso ao Gabinete foi fácil - na medida em que este negociou com todos os setores, tratando-os de modo mais respeitoso e igualitário que o reitor anterior. Se normalmente a memória tende a idealizar o passado, a pequena comunidade do Centro de Ciências Humanas não tem nada a idealizar na gestão Thomson, período no qual o Centro (tradicionalmente visto como oposicionista), passou a pão e água (tendo faltado inclusive papel higiênico), isto porque, obviamente, não foi possível mandar todo o CCH para a Sibéria.
Também pesa em favor da administração do prof. Jackson o fortalecimento dos cursos de graduação, a abertura de novos cursos e a ampliação de vagas na Universidade, faltando, no entanto, um investimento maior na aquisição de livros. Além disto há um estímulo, talvez ainda tímido demais, para a expansão do Pós-Graduação em todas as áreas. Em termos globais, no entanto, pode-se dizer que a Universidade está mais inserida em seu tempo, encontra-se em fase de preparação para enfrentar os desafios de final de século e, seguramente, isto depende de uma política de cooperação - mais em conformidade com os dias atuais - como bem destacou o dr. Márcio Almeida.
Pode-se alegar, aliás, que a administração do prof. Jackson não foi a ideal, mas os notáveis progressos da Universidade nos últimos quatro anos são inegáveis. Analisando historicamente a questão pode-se concluir que são muito mais positivos os problemas gerados pelas tentativas de mudanças do que aqueles originados do desejo de conservação: Da água estagnada espera o veneno, já dizia William Blake. Assim, a uma monarquia, que de parlamentarista só tinha a fachada, é preferível um regime republicano, ainda que imperfeito.
Talvez a melhor contribuição que a velha oligarquia saquarema tenha dado à UEL resida justamente no fato de tê-la jogado nos braços da oposição nos idos de 1994. Talvez a melhor contribuição que possa dar, atualmente, seja continuar nos seus afazeres domésticos.
- JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História da América da Universidade Estadual de Londrina e autor do livro ‘‘O Eldorado: representações da política em Londrina 1930/1975’’

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