A falácia do fundo da pobreza
Os liberais andam bastante assanhados. Primeiro, tomaram do PT a bandeira do salário mínimo a US$ 100, ou seja, R$ 180, como se isso fosse salvação absoluta para quem ganha R$ 151. Depois, e em uníssono, passaram a defender, com urgência, a aprovação de um Fundo de Pobreza. Um fundo que, como todos os outros neste País, acabará carreando mais dinheiro para os endinheirados. Quem não se lembra, e isto é apenas um exemplo, de que o FGTS forneceu recursos para que o finado Banco Nacional de Habitação financiasse palacetes de luxo por aí a fora?
Fala-se, agora que, mesmo antes do recesso de fim de ano, se terá aprovado esse fundo da pobreza. Está certo, qualquer coisa que se faça em prol dos excluídos será bem-vindo. Mas uma coisa é uma política pública, institucionalizada, como se fosse, efetivamente, uma questão de Estado, e outra, bem diversa, é a esmola.
Vamos ver alguns números.
As projeções iniciais nos dizem que, a cada ano, serão disponibilizados, para o combate à pobreza, recursos da ordem de R$ 4 bilhões. Façamos as contas. Em nosso País há, pelo menos, 30 milhões de pessoas vivendo na mais absoluta miséria. E se dividirmos os R$ 4 bilhões por essa multidão de famintos vamos encontrar a fatia de R$ 11 por pessoa a cada mês. Admitindo-se que a família média brasileira é composta de 4 cidadãos, cada família iria receber, na hipótese de uma divisão universal, menos de R$ 50 mensais, uma terça parte do que, hoje, é o mínimo.
Para que, portanto, iludir? Para que alimentar esperanças que se não vão concretizar? A pobreza é mais que a fome, é, antes de mais nada, a absoluta exclusão.
Há falta de recursos, uma alegação que nossa gente ouve, anos a fio, embora as ostentações de riqueza sigam existindo e se ampliando, Brasil a fora. Um exemplo: os lucros dos bancos, a meio de tanta miséria, foram simplesmente astronômicos.
Mas de onde saíram os recursos para pagar, de 1994 a 1998, US$ 195 bilhões de amortizações e juros da dívida externa? E para, ano passado, remeter ao exterior, mais de R$ 7 bilhões como remessa de lucro?
São esses os recursos amontoados pelo governo quando assalta o bolso do contribuinte são lucros gerados por nosso homem que trabalha, já que rico, é o que nos ensina a Receita Federal, não paga impostos e faz suas compras em Miami.
Apenas nos causou espécie que, num repente, o liberalismo caboclo se lançasse com sofreguidão em defesa dos pobres e entendemos melhor colocar as coisas em pratos limpos.
O liberal é defensor emérito das liberdades públicas fazendo qualquer tipo de aliança, até mesmo com a social-democracia, para que se tenha democracia política. É o que ocorre no Brasil: há, sem dúvida nenhuma, liberdade para a cidadania.
Mas, quando se trata de democracia social, de igualdade, pelo menos, de oportunidades, aí a cantilena é outra: igualdade, não; esmola, sim! E o Fundo de Pobreza, é impossível negar, não passa disso: uma mísera esmola.
- RUBENS BUENO é deputado federal pelo PPS-PR
E-mail: [email protected]





