A facilidade de os políticos se salvarem
Se a Câmara Federal já havia adotado posição idêntica com 11 dos 19 colegas envolvidos nas denúncias do mensalão (3 foram cassados e 4 renunciaram ao mandato, para livrar-se), não faria diferente com José Janene. Assim, afora os 3 cassados, considerou inocentes todos aqueles que julgou. Porque, em tais casos, devem ter faltado as provas concretas, sempre difíceis em acusações dessa natureza. Se o deputado irá de qualquer modo encerrar seu mandato em janeiro - porque não se candidatou à reeleição - o episódio robustece a tradição do universo político de nunca reunir comprovações suficientes para medidas mais severas. O apelo à piedade, utilizado no plenário da Câmara durante o processo de votação, também influiu na decisão final, porque Janene tem uma cardiopatia grave, e por isso - foi o argumento de alguns de seus pares - estava impossibilitado de estar presente para defender-se. Mas a cassação, se ocorresse, não tornaria pior a sua doença. Não só no presente caso mas também nos dos outros deputados favorecidos, aconteceu o que a opinião pública já esperava. Sem surpresas. O julgamento ocorre dentro do próprio sistema, e dessa forma - com provas ou não, com vontade ou não de investigar a fundo - permanece o baixo conceito que a opinião pública tem acerca dos parlamentares e dos governantes no geral. Parece evidente para os cidadãos que provas existem de sobra para cassar os denunciados, neste como em outros casos, mas os escapes sempre livram eventuais culpados. O povo entende que só a existência de denúncias deve ser suficiente para, no mínimo, o homem público licenciar-se enquanto o processo de investigação caminha. Porque um homem público não deveria governar estando sob suspeita. A facilidade com que são postos a salvo os políticos acusados vai robustecendo o corolário de precedentes e serve de modelo para casos similares nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais. Porque o que é ruim cria seguidores mais facilmente do que as coisas boas. É sempre lamentável que os homens públicos, eleitos pelo aval do povo, percam a oportunidade de servir e se envolvam em casos de proveito próprio. Que, mesmo que não provados, afloram e ganham todos os contornos de verdadeiros. E é nisto que o povo crê - que são verdadeiros - por que as legislaturas e os mandatos executivos vão se sucedendo e as denúncias são constantes e sempre da mesma natureza. E se as punições raramente acontecem, é evidente que prevalecem privilégios de imunidade e de impunidade. Estas são páginas cinzentas da história política brasileira.





