A faca e o queijo - Dad Squarisi
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quinta-feira, 10 de dezembro de 1998
Dad Squarisi 
O presidente criticou a aposentadoria precoce das mulheres. Não se justifica, disse ele, que elas parem de trabalhar com menos tempo de serviço que os homens. É incoerência: elas vivem mais e trabalham menos. As reações não tardaram. FHC devia ir pra cozinha e pro tanque, receitou a deputada Rita Camata. O presidente é um machista. Não reconhece o desgaste da mulher que compete no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, cuida da casa e das crianças, criticou a também deputada Maria Elvira. O mercado de trabalho paga menos às mulheres, justificou Rita de Cássio Evaristo, da CUT.
Dona Ruth saiu em defesa do marido. Disse que a luta tem que se basear na divisão de tarefas. O trabalho da família precisa ser partilhado pelo homem. Não é a mulher que tem que trabalhar menos na profissão. O homem é que tem que trabalhar mais em casa.
O fato é que Fernando Henrique pôs o dedo na ferida. Apontou contradição do movimento feminista. A guerra da mulher pela emancipação baseou-se na busca de direitos iguais. Queria sair de casa, ter acesso à escola, concorrer no mercado de trabalho.
Chegou lá. Os tribunais estão povoados de saias, o Congresso abriga 37 deputadas e 5 senadoras, elas são maioria na universidade. Líderes feministas justificam o privilégio. Alegam a dupla jornada da mulher. Ela trabalha oito horas fora do lar. Depois, em casa, aguardam-na as tarefas domésticas. Precisa cuidar da comida, da roupa, do dever dos filhos. O marido porta-se como visita.
A quem interessa manter as coisas como estão? Não às mulheres. O preço que elas pagam é salgado. A aposentadoria precoce contribui para perpetuar o status quo. É a retribuição pela sobrecarga. Aceitando-se uma, curva-se à outra.
Como mudar? Leis e decretos não resolvem. Impõe-se transformar a mentalidade. Da mulher. Ela é a grande reprodutora da discriminação. Os papéis de mãe, enfermeira, professora - considerados extensão do mundo feminino - são exercidos predominantemente por quem usa batom e salto alto.
Seria de se esperar que as novas gerações estivessem sendo preparadas para viver num mundo em que mulher e homem tivessem direitos e deveres iguais. O que se vê, porém, é a mãe transmitindo cultura machista ao filho; é a professora exigindo brilho e competição do aluno e bom comportamento e elegância da aluna; é a enfermeira reforçando o só mulher chora.
Como esperar mudança de cabeça enquanto a agente capaz de promovê-la reforça papéis e preconceitos? Não será com documentos legislativos, nem órgãos feministas, nem homenagens discriminatórias. Mas com efetiva atuação - em casa, na escola, nos meios de comunicação. A mulher tem a faca e o queijo na mão. Promova a revogação de homenagens, privilégios e proteções paternalistas.
É o primeiro passo.
- DAD SQUARISI é jornalista em Brasília


