A exumação dos vampiros
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de julho de 1997
José Nêumanne 
Ninguém de sã consciência duvida que o médico-legista Jorge González, chefe da equipe cubana que foi à região central da Bolívia procurar os despojos de Che Guevara, jamais voltaria à ilha sem eles, sob pena de ele mesmo vir a ser autopsiado em breve. Mas também não se deve duvidar da autenticidade de sua pesquisa. Não é improvável mesmo que o esqueleto caprichosamente arrumado sobre uma cama, reproduzido nas capas de jornais do mundo inteiro, seja do comandante guerrilheiro.
Sendo ou não sendo, o fato é que seu espectro volta a assustar o mundo. O primeiro susto foi quando, ao lado de seu comandante e guia Fidel Castro, desceu de Sierra Maestra para tomar de assalto o poder em Cuba das mãos do regime corrupto, sanguinário e isolado de Fulgencio Batista. O primeiro incomodado foi o gigante imperialista ao norte do mar de Caribe, que logo percebeu o dedo de Moscou no regime instalado pelos barbudos de boina e permanentemente fardados. Mas os russos também tiveram seus percalços com os charmosos cabeludos pré-Beatles. O argentino era inquieto demais para aceitar passivamente a tutela que os soviéticos queriam impor sem discussões aos súditos caribenhos.
Ao próprio Fidel nunca faltaram motivos para queixas do companheiro e comandado. Tanto que se apressou a divulgar a famosa carta, em que este liberava o Estado cubano de responsabilidade por sua aventura, primeiramente no Congo e depois na Bolívia, de exportar a revolução, fabricando um, dois, cem Vietnans no Terceiro Mundo.
A impressionante fotografia de seu cadáver exposto pelos captores nas selvas bolivianas trouxe repentino alívio à ditadura militar de direita do país onde foi capturado, mas também terminou se tornando um incômodo geral. Mais do que um mártir dos desvalidos, o comandante Che Guevara tornou-se um ícone pop, item importante no mercado de consumo, que ele mesmo tanto desprezou e combateu. Mesmo assim, o guerrilheiro morto tornou-se um mito, um símbolo da rebeldia juvenil, que virou o mundo de pernas para o ar dos anos 60 para cá.
Cuba está exumando seus restos mortais para tentar dar o mínimo de alento ao decrépito regime castrista, que se esboroa lentamente, até por, sendo um sistema personalista, não ter muita chance de sobreviver à pessoa que o fundou e comanda com mão de ferro há 37 anos. As coincidências da arcada dentária e da conformação facial, descobertas pelo legista, bastam para justificar todas as homenagens que lhe foram rendidas em Havana e as outras prometidas para outubro, quando será lembrado o 30º aniversário de sua morte.
Mesmo que a Chemania seja uma realidade no Ocidente capitalista, que consome pôsteres da foto famosa de Korda e até cerveja com a marca de três letras do apelido portenho, o oxigênio que tal homenagem propiciará ao regime castrista, contudo, dificilmente evitará a continuação de sua decadência. Pois o foquismo de Che Guevara, que levou muitos jovens à morte nos anos 60 e 70, já se provou absolutamente inviável. Ninguém mais, a esta altura do campeonato, prestará atenção em algum líder político que propuser tomar Estados bem aparelhados, e articulados internacionalmente no sistema globalizado, contando apenas com punhados de fanáticos disciplinados, por mais treinados que sejam.
No Brasil, cresce e floresce esse gênero de zumbi político, que ainda assola o mundo. Qualquer entrevista do novo presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Ricardo Capeli, bastará para despertar a curiosidade de algum estudioso da arqueologia ideológica. Tal curioso terá bons motivos para se perguntar por quê, num país destas dimensões, estudantes imaginam poder transplantar um modelo originário de outro país (a Albânia), do qual a própria população arrisca a vida para fugir.
Mas nem aqui a análise da arcada dentária do cadáver exumado em Vallegrande será capaz de superar a enorme distância que opõem aos fins longínquos pretendidos pelos defensores do foquismo os meios escassos com que contam. O cadáver do comandante pode ser exumado, mas seus equívocos continuarão sepultados para sempre. De útil dessa exumação de vampiros resta apenas o exemplo de solidariedade de um homem brutal, mas generoso, que arriscou a vida, lutando pela liberdade de países, a cujos povos não pertencia. Esta continua sendo a única boa lição a ser transmitida das selvas da Bolívia, neste momento em que a globalização da economia torna a generosidade, mais do que um sentimento inútil, um autêntico perigo.


