O Ano Internacional do Voluntariado, promovido mundialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2001, despertou a atenção dos empresários em relação ao tema. No Brasil, o assunto virou febre. Calcula-se que a filantropia movimentou cerca de R$ 680 milhões no ano passado. Além disso, a matéria foi incorporada aos cursos de pós-graduação de sete das principais escolas de ensino superior do país, gerou emprego, especialização, desenvolveu competências. Só na região Sudeste, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) informa que 300 mil empresas possuem algum tipo de trabalho filantrópico. Mais que esse conjunto de indicadores positivos até, demonstrou a urgente e real necessidade de fazer algo que realmente acrescente na construção de um país mais justo. Restou a mensagem que, para o empresário, não basta investir ou patrocinar, tem de capitanear, liderar, empreender, enfim, arregaçar as mangas ou botar a mão na massa, como se diz popularmente. O tão decantado marketing social não é perfumaria nem maquiagem, modismo ou oportunista. Essa noção traduz o reflexo da personalidade corporativa.
Hoje em dia, a responsabilidade social faz parte da missão de qualquer organização que pretenda ser moderna, alinhada com um discurso pró-ativo, e distante do assistencialismo, paternalismo e amadorismo que caracterizavam esse tipo de ação tempos atrás. Atualmente, valoriza-se o conceito de empresa-cidadã. Trata-se de um conjunto de políticas que apostam na crença da transparência, desenvolvimento e no progresso da sociedade. Todos, na verdade, correm atrás de um bem comum: compromisso com a qualidade de vida. Nesse processo, as organizações já detectaram que incentivar o trabalho voluntário pode transformar os funcionários psicologicamente e espiritualmente. São pessoas que, estimuladas pela bandeira social erguida dentro das corporações, se dispõem a dedicar parte de seu tempo a qualquer tipo de causa, seja ela educacional, ambiental ou de saúde.
Numa análise macroeconômica, essa preocupação ventilada pelo primeiro escalão das corporações traduz em produtividade, satisfação e comprometimento dos empregados. Em 2000, uma pesquisa mostrou que 31% dos consumidores brasileiros analisavam a conduta social das empresas antes de comprar o produto. Já é um avanço significativo. Esse movimento foi captado numa pesquisa divulgada pelo Centro do Voluntariado de São Paulo. Nele, ficou comprovado que 38% dos profissionais que procuram a entidade vêm de empresas. Esse dado evidencia que as companhias estão compromissadas e principalmente empenhadas em disseminar a mensagem social entre clientes, parceiros e na comunidade. A outra boa notícia é ainda mais alentadora, porque sobra mão-de-obra para o segmento. No entanto, por ser um segmento relativamente novo no país, as corporações partem agora em busca da sintonia fina dos programas, ou seja: busca-se o gerente do negócio ou o líder que implemente, conduza e se responsabilize por planos, metas e administração de verbas.
A maior preocupação, porém, é investir na formação de líderes para o Terceiro Setor. E este é o momento de disponibilizar recursos na direção dos jovens, pois teremos de capacitá-los no aperfeiçoamento de um profissional afinado com as teses cidadãs. Para sobrevivência e consolidação do movimento é fundamental que os programas sociais sejam conduzidos por gente bem preparada, porque o trabalho demanda coordenação estruturada, dedicação insana, articulação, e trânsito livre para conversar com todos os níveis hierárquicos da empresa. Os projetos sociais ganharam magnitude, metodologia, orçamentos e metas. Nessa capacidade de buscar a transformação social, por que não aproveitar o contingente da terceira idade? São pessoas com conhecimento, experiência e maturidade suficientes para reforçar as trincheiras filantrópicas. Nosso papel é informá-las e seduzi-las para as atividades voluntárias, tirando-as de sua casa, estimulando para que se tornem mais úteis. Esse tipo de adesão, quando se mescla o ímpeto jovem com a sabedoria dos mais velhos, vai assegurar o sucesso na construção de uma mentalidade de responsabilidade social.
Fica claro, no entanto, que toda e qualquer iniciativa tem de brotar da sociedade civil organizada, principalmente quando o país possui um exército estimado de 20 milhões de brasileiros envolvidos em projetos de voluntariado. A cada dia que passa aumenta o número de pessoas interessadas em dar sua cota de colaboração. Basta relembrar que o poder público, seja ele federal, estadual ou municipal, mostrou-se incapaz de ser o provedor dessas soluções, por mais boa vontade que possa ter. E é preciso ser rápido, para pelo menos aliviar a situação dos mais de 50 milhões de excluídos que vivem com menos de R$ 100,00 mensais em nosso país, sem direitos, sem voz, sem sonhos. Não importa se você conta histórias para aliviar a dor dos enfermos num hospital ou participa de um projeto de alfabetização solidária. Responsabilidade social não é exclusividade ou privilégio das grandes corporações. Um esforço mínimo vai valer a pena, através de pequenas ações diárias. Esse é o melhor jeito de fazer o bem.
MILTON ZYMBERG é gestor de negócios em São Paulo

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