A explicação de Babalú de Rechacê
Meu nome é Rechacê. Babalú de Rechacê. Vocês, brasileiros e brasileiras, me conhecem. Recentemente, parecíamos até íntimos. Torceram por mim como se eu fosse resolver todos os problemas da terrinha ajudando meu dono e senhor a ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.
Nunca fui tão fotografado e paparicado. Recebi até convite para passar uma semana na Ilha de Caras. Um candidato a prefeito, que tinha certeza de chegar ao segundo turno (o que acabou acontecendo), me ofereceu uma fortuna em alfafa só para que eu me deixasse fotografar com ele no meu lombo. Recusei. No meu não, jacaré!
Não sou político. Aliás, como deu para perceber, nem gente sou. Nasci animal e vou morrer assim, graças a Deus. O problema é que, como só poderia acontecer no Brasil, país que conheço só porque, de vez em quando, meu dono se refere a ele em conversas com o pai (dele), de repente, não mais que de repente, a pátria de chuteiras se transformou na pátria de ferraduras. Minhas.
Tá certo, sei que, por aí, o quociente de cavalgaduras por habitantes é um dos maiores do planeta, mas nunca me imaginei numa situação como a que antecedeu a prova final, que acabou do jeito que todo mundo sabe.
Na véspera, quando estava quase pegando no sono, recebi uma visita inesperada. Como estava muito sonolento, não defini se o vulto que se esgueirou pela cocheira era gente ou animal. Pela apresentação que me fez em voz sussurrante, era meio termo. Justiça seja feita que o tal de Luxemburro foi direto ao assunto. Ajoelhou-se, juntou as mãos e me implorou a vitória. Disse que o futuro de sua (dele) conta bancária dependia do meu desempenho, pois iriam esquecê-lo temporariamente.
Alinhavou uma série de motivos para reforçar seu pedido. Estava sendo perseguido pela imprensa, pela torcida e, principalmente, por uma tal Receita Federal. Bocejei (cavalo boceja, viu?) e fui sonhar com uma égua maravilhosa que vi desfilar num concurso de equitação. Antes, ainda captei nomes como Nike, Ricardo Teixeira, Romário, Camarões, Felipão, Prisão de Segurança Máxima de Bangu.
Acordei bem disposto. Sabia que tinha todas as chances de ganhar aquela parada, afinal, sou bicampeão mundial e, meu preço, segundo a cotação antes do vexame, era de US$ 7 milhões. Já tinha esquecido o burro e a égua, quando meu senhor chegou com um telegrama na mão. Tinha o timbre da presidência da República. Um tal de Fernando Henrique assinava a mensagem. Claro, era mais um pedido. E oficial.
Numa linguagem empolada, que me lembrava o papo de uns companheiros que andaram sendo montados por cavaleiros da Sorbonne, ele afirmava, com a maior cara-de-pau, que o futuro da nação dependia de meus saltos. A frustração de toda a nação brasileira tinha sido grande demais até aquele dia nas Olimpíadas. Dizia que de nada adiantaria a economia dar sinais de recuperação se o Galvão Bueno não pudesse se esgoelar gritando é ouro para o Brasil. Sim, FHC sabia que eu era um animal, mas nos últimos anos, confidenciava, tinha se acostumado a dialogar com a raça, afinal, toda semana faz reuniões ministeriais.
Bem, para encurtar a lengalenga, ele dizia que se eu levasse o meu dono ao topo do pódio, o caos em que o País está mergulhado iria desaparecer, feito milagre. Até um tal de Itamar Franco iria baixar a bola e pedir licença para internamento numa clínica para tratamento de malucos. Até aí, não entendi nada, mas compreendi a aflição presidencial.
O problema é que, nas linhas finais, ele pisou no meu casco direito, o mais sensível. Falou em eleições. Disse que, se eu falhasse, poucas horas depois isso iria canalizar um princípio de revolta popular e os principais candidatos da situação iriam cair do cavalo (desculpem a imagem).
Como já relinchei, ou melhor, disse, não sou político, muito pelo contrário. Sou um animal honrado e, acima de tudo, nobre. Aquela carta me desestabilizou emocionalmente. Na hora da comida, exagerei, enchi o bucho, enfim. Fui para a prova desanimado. Me disseram depois que eu parecia o Ronaldinho na partida final da Copa do Mundo da França. Na hora do vamo vê (tenho minhas recaídas para o populacho), ainda tentei me esforçar. Não deu. Refuguei e só não derrubei meu dono e senhor porque o respeito muito.
Soube depois que houve muita choradeira no Brasil. Mas o que é que eu podia fazer? Não tenho nada a ver com essa zorra daí. Refuguei, e daí? Na manhã de segunda-feira, entretanto, recebi uma montanha de correspondência de pessoas agradecendo a pipocada. Aí desisti de entender o país de vocês. Até um sapo barbudo me escreveu. Se dizia muito feliz e afirmava que eu tinha ajudado o povão a enxergar melhor o País. Será? Não sei. O importante é que voltei à minha vida normal e nunca mais quero passar por experiência parecida. Também, quem manda meu dono dizer que é brasileiro.
- Roberto José da Silva é jornalista em Curitiba





