''O saber está no desejo de comunicar-se, no respeito pela importância, pelo interesse do que desejo, penso e sinto''. Foi a essa conclusão que a psicopedagoga argentina Alicia Fernández chegou após o trabalho feito com 125 alunos de uma escola de Buenos Aires. Era maio de 2002. A crise enfrentada pelo país chegou às escolas que ficaram sem a merenda escolar. Procurada por uma professora, sua aluna de psicopedagogia, Alicia decidiu ir até a escola. ''Não como psicopedagoga, mas como cidadã'', fez questão de lembrar.
Alertada sobre o comportamento dos adolescentes, conhecidos como ''faca na bolso'' por andarem armados, Alicia lembra que ao chegar foi questionada pelos alunos se ela teria uma solução para o problema. ''Somos grandes e estamos deixando de comer para que a comida chegue para os pequenos'', contou um dos meninos.
Indignada, Alicia se lembrou e relatou aos alunos uma experiência que acontece no Brasil. ''Sabe, no Brasil, num lugar chamado Assaré, no Nordeste, onde água quer dizer vida e a palavra sol quer dizer morte, uma vez por ano as pessoas colocam umas cordas e penduram com pregadores o que sentem e o que pensam. Quem sabe escreve e quem não sabe pede a outro que o faça. Só pelo desejo de se comunicar. Aí a terra seca fica úmida de humanidade'', disse aos alunos.
As crianças se interessaram pela experiência. Alicia mostrou dois trabalhos. Num deles, uma carta endereçada ao governador, com pedido para que as crianças tivessem o que comer na escola. A palavra não tinha a última letra. O erre havia sido ''comido''. ''Descobri que se come letras!!! Naquela circunstância o erro ortográfico produziu sentido. O sentido da omissão. Num lugar sem comida'', recorda. A psicopedagoga observa que nos erros de ortografia pode aparecer o não-dito. ''Faça o erro falar. Isso pode ser a função mais importante do professor. Fazer falar o erro, o não dito. Dar lugar a isso''.
Outra experiência destacada foi de um aluno que entregou a folha em branco. ''Eu não fiz nada'', disse ele. ''A dupla negação é uma afirmação. A proposta do ensinante é tratar de abrir espaço de produção de sentido para que o saber escondido possa aparecer'', analisou ela.
Ao observar o trabalho, Alicia perguntou ao menino se queria escrever algo. Ele respondeu: ''Coloque aí embaixo que este foi o meu café da manhã. Será também meu almoço''. E pendurou a folha em branco no varal. ''Quantas páginas em branco não falam nada porque não tem um professor que deixe isso acontecer. Se deixamos falar o saber, nos conectamos muitas vezes com a angústia e a tristeza. Mas se não deixamos falar o saber não poderemos nos conectar com a alegria da vitória''.
As mensagens escritas pelos alunos foram soltas através de balões. A iniciativa chegou ao conhecimento de políticos que trataram de reverter a situação na escola. Mas o mais importante é lembrado por Alicia Fernández: ''Quando os balões desapareceram no céu, as crianças estavam emocionadas. Uma delas perguntou se alguém leria as mensagens. Um outro respondeu: ''O importante foi o que fizemos''. A psicopedagoga concluiu: ''Aí está a importância da autoria. Não está na procura do resultado e na obtenção dos ganhos, mas no reconhecimento da possibilidade de se tornar visível o que você sabe e pensa. E de tentar transformar o mundo e a si mesmo''.L.M.

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