A função pública exige têmpera, capacidade de resistência, isenção de melindres e desassombro para seguir em frente, com chuvas ou trovoadas. O presidente Lula, acostumado aos aplausos de outrora, quando apenas exercia políticas de oposição, chegou a esmorecer em certos dias de seu governo, pois não sabia que as coisas eram assim. Faltava-lhe a prática, que ele nunca exercera antes, pois não chegou a ser ao menos dirigente de uma pequena empresa que fosse, o que requer alguma sabedoria para administrar contratempos. Agora é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se diz exausto ante o redemoinho de críticas em que está envolvido. Ele, embora outrora habituado à responsabilidade de destacadas funções na vida privada, não conhecia a vulnerabilidade de ser homem público. Se o cidadão comum ambiciona o poder político, deve saber que, a partir daí, não mais se pertence. Se espera não ser perturbado pela exposição pública, engana-se, e se não estiver preparado, chega à exaustão como esta de que agora Meirelles se queixa. Ninguém se exaure por elogios e, ao contrário, surfa agradavelmente sobre essa corrente. Já as críticas melindram, ferem os egos. Alguns começam a sentir-se vítimas, outros reagem e se enfurecem, outros se calam e acham que não devem dar explicações. Este é um período de campanha eleitoral e os que estão na corrida para subir à ribalta não imaginam que, uma vez chegando lá, já não serão donos de si próprios, pois estarão sob as vistas da opinião pública e serão cobrados. Alguns, quando criticados, sentem-se ofendidos e chegam à via dos recursos legais para reparo do que qualificam de danos morais. E sabe-se que, ressalvadas as exceções, moralidade não é um atributo muito presente na consciência dos políticos, quando menos por não cumprirem promessas de campanha, arrastarem seu tempo de mandato sem grandes empreendimentos e, se na função parlamentar, não apresentarem sequer um projeto que redunde em algum benefício público. Na vida pública não basta não ser corrupto mas há a implícita obrigação de aproveitar a oportunidade e o poder conferidos pelo povo e executar a missão que lhe foi delegada. Porque nada fazer é também uma forma de roubo, eis que tempo é um bem precioso, e ocupar um lugar em vão é tirar a chance de alguém que poderia estar fazendo melhor. No caso do presidente do Banco Central, razão destes comentários, não é uma boa política deixar de responder a cada acusação a reviravolta que ele agora anuncia e sim prestar contas ao público sobre cada uma delas. Se nada há a temer, não há motivo para omissão. O povo deseja dos políticos que eles expliquem tudo. Certo é que, se tudo corre bem, ninguém pede explicações.

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