A Europa pós-Charlie
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 2015
Mariana Franco Ramos <br>Reportagem Local 
Curitiba - Os recentes atentados na França entre eles o que deixou 12 mortos na redação do semanário Charlie Hebdo desencadearam uma série de protestos de solidariedade por toda a Europa, inclusive com a participação de chefes de Estado. Por outro lado, manifestações de caráter islamofóbico, xenófobo e antissemita, antes restritas a grupos de extrema direita, começam a ganhar espaço nos demais setores da sociedade.
Natural de Frankfurt, na Alemanha, e casado com uma brasileira, o historiador Georg Fischer, 34 anos, acompanhou de perto os últimos acontecimentos no continente. Desde o ano passado, ele leciona história do Brasil na Universidade de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca e onde o jornal Jyllands-Posten publicou as primeiras caricaturas de Maomé, em 2005.
Em entrevista à FOLHA, o professor analisa os possíveis efeitos dos atos de violência nas políticas europeias de imigração e de asilo. De acordo com ele, a dúvida hoje é se a "impressionante amostra de solidariedade" será capaz de isolar as atuações dos grupos mais conservadores, que reivindicam, entre outras pautas, a adoção da pena de morte e a ampliação de leis de segurança.
Como estava o clima nos países europeus antes do ataque ao Charlie Hebdo? Já havia uma ação forte contra muçulmanos e/ou imigrantes?
Na maioria dos países europeus, o debate sobre políticas de imigração e de asilo é um tema importante e constante nos últimos anos. Isso ocorre devido ao aumento no número de refugiados oriundos de locais com instabilidade política no Oriente Médio, Norte da África, Afeganistão e também devido às novas regras de livre circulação na Europa. O número de pessoas que, por razões econômicas, entre outras, se veem obrigadas a deixar seus países e a tentar chegar à Europa através do Mediterrâneo também cresceu. Mas, mesmo antes da atual onda migratória, já havia movimentos contra a imigração em países europeus, que acreditavam, por exemplo, que muçulmanos não se "integravam" na Europa. Muitos desses movimentos nacionalistas estavam em ascensão política.
É um movimento unificado? E por que ele cresceu tanto recentemente?
Na França, a mudança para a extrema direita foi mais dramática desde as últimas eleições, pois a Frente Nacional pode conseguir posições concretas de poder num futuro próximo. Na Hungria, o premiê conservador, Viktor Orbán, se aproximou do partido Jobbik. Na Alemanha, o movimento Pegida (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente), que une abertamente conservadores nacionalistas e radicais, é um fenômeno novo. Em outros países, movimentos de extrema direita também foram manchetes de jornais nos últimos anos, como, por exemplo, o Partido para a Liberdade, na Holanda, ou os Verdadeiros Finlandeses. Mas há grandes diferenças nas agendas deles. Alguns são antissemitas e homofóbicos; outros não. Por isso, esses partidos não têm conseguido se unificar ao nível europeu. Não é simples citar motivos claros para a sua ascensão. O que os une é a rejeição à imigração e, em especial, aos muçulmanos. Na última década há uma tendência na mídia de relacionar o Islã com o diferente, com o medo e o terror. O movimento Pegida descobriu o cristianismo como uma nova bandeira de luta na Alemanha secular. Também se dirige a uma pretensa ditadura do "politicamente correto". A isso se une o medo da perda do poder econômico e da confiança nas instituições estatais, que estão ligadas à crise europeia. Ainda não está claro se existe uma relação direta com esse aspecto, já que nos países mais afetados pela crise econômica, como Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, tais movimentos não ganharam destaque.
Por outro lado, há uma espécie de contrarreação, sobretudo da esquerda?
Na Alemanha sim, e não só da esquerda. Embora, em pesquisas, o Pegida tenha altas taxas de aceitação, a mídia e os partidos, quase que na sua totalidade, são contrários a esse movimento. A própria chanceler, Angela Merkel, entende que os quatro milhões de muçulmanos que vivem na Alemanha também representam o País e repetiu a frase clássica do ex-presidente Christian Wulff: "O Islã pertence à Alemanha". A reação da Igreja contra o movimento foi mais clara, ao apagar as luzes da Catedral de Colônia, devido à concentração de integrantes do Pegida em frente ao local. Na França, ao contrário, a Frente Nacional já teve grandes sucessos eleitorais e o governo de centro-esquerda tem problemas para parar seu avanço.
Você chegou a participar dessa movimentação?
Na verdade não. Eu estava na Staatsbibliothek, biblioteca de Berlim, quando ocorreu o primeiro protesto com o Bärgida, uma versão do Pegida. A biblioteca esvaziou de repente. No final, cerca de cinco mil manifestantes de esquerda protestaram contra 300 da direita, entre eles muitos neonazistas. Em uma cidade de esquerda como Berlim, esse tipo de movimento não tem nenhuma chance.
Qual o perfil das pessoas que têm ido às ruas?
Em Dresden, que é o centro das atividades do Pegida, são na maioria pessoas da classe média. A insatisfação com a política e provavelmente o medo de perder posições (sociais) são os principais motivos que as levam a participar. A elas se unem neonazistas e algumas torcidas organizadas de clubes de futebol.
Como os europeus, de forma geral, receberam a notícia do ataque ao Charlie Hebdo?
Naturalmente, muitas pessoas estão tristes e com medo. O nível de alerta em Aarhus foi elevado. Primeiro, veio a solidariedade espontânea, com a frase "Je suis Charlie", que se espalhou pela Europa inteira. Devagar, surge um novo debate que trata de aspectos mais amplos: se eu sou Charlie, isso significa que eu me identifico com as caricaturas? Posso me identificar com elas? Essa identificação não exclui muitas pessoas, por exemplo, muçulmanos que são contra os atentados, mas que se sentem ofendidos com essas caricaturas? E por que ninguém protestou contra o Boko Haram, que fez milhares de vítimas apenas alguns dias depois? Eu acho esses debates muito importantes e não acredito que eles relativizem o significado dos terríveis ataques de Paris. É um momento em que muitos atores sociais buscam um posicionamento claro. Em Berlim, houve um grande evento de solidariedade, organizado pelas associações muçulmanas, em frente ao Portão de Brandemburgo, com a presença do presidente Joachim Gauck. Foi um sinal forte e que já deu uma resposta a algumas dessas perguntas. Além do tema liberdade de imprensa, falta uma solidarização maior com a comunidade judaica, que também foi uma das principais vítimas do ataque.
Acredita que o atentado possa potencializar uma atitude xenófoba na Europa?
A Europa enfrenta um problema de islamofobia. Na Alemanha, cerca de 50% da população percebe o Islã como uma ameaça, embora a esmagadora maioria dos muçulmanos se identifique com a sociedade alemã. O crescimento ou não desse problema depende se o debate conseguirá separar Islã e fanatismo religioso. No momento, parece que está dando certo, também porque muitos atores sociais, assim como associações muçulmanas e judaicas, reagiram corretamente. Na França, ainda não está claro se a impressionante amostra de solidariedade será capaz de isolar a Frente Nacional, que agora reivindica a reintrodução da pena de morte.
O fato de Charlie Hebdo ser uma publicação de esquerda tem algum reflexo em particular?
Muitos da esquerda veem dois adversários principais: os nacionalistas xenofóbicos e o fanatismo religioso. Ambos são antidemocráticos e muitas vezes antissemitas, mas o último, no momento, é mais brutal e aparentemente mais forte financeiramente e logisticamente. Com relação à Charlie Hebdo, eu não conheço muito da revista para avaliar seus leitores, não sei se ela se denominaria "de esquerda". É uma revista republicana e defende a sociedade secular. Existem vozes da esquerda que defendem uma sociedade que protege os sentimentos de todos os seus membros, levando em consideração que a maioria dos muçulmanos na Europa vive num status de subalternidade. Daí, surgem as críticas à Charlie. Por outro lado, existem vozes dentro da mesma esquerda a favor da defesa incondicional dos valores ocidentais. Elas esperam que logo se inicie um processo de reforma dentro do Islã.
Quais as possíveis consequências do ocorrido em curto e médio prazo?
Na Europa toda, há debates sobre a ampliação de leis de segurança, como o armazenamento de dados telefônicos e de internet. Também procura-se melhorar o monitoramento de extremistas europeus que desejam viajar para regiões de conflitos ou voltar à Europa. O engajamento militar direto ou indireto de muitos países na Síria, no Iraque, Afeganistão ou Mali continuará. Ao mesmo tempo, sabe-se que será difícil impedir esses atentados no futuro. Resta esperar os efeitos que os ataques terão nas políticas de imigração e de asilo.
As reações nos países próximos à França têm sido parecidas?
Políticos em toda a Europa estão tentando impedir que a tendência islamofóbica seja intensificada devido aos ataques. A França tem um grande desafio, pois a discriminação social contra jovens muçulmanos é muito forte. O crescente antissemitismo, tanto islamita quanto da extrema direita, também é um problema. Na Alemanha, a situação é um pouco diferente. Há problemas sociais, porque os jovens descendentes de turcos não têm as mesmas chances de educação e profissionais que os alemães. A sociedade está bastante sensibilizada com respeito ao extremismo de direita, pois ainda lembra muito bem da perseguição violenta aos refugiados no início da década de 1990 e também refletiu bastante sobre a questão desde a descoberta do grupo terrorista de direita NSU, há três anos.
O Brasil também possui um número grande de imigrantes, tanto muçulmanos (em Foz do Iguaçu, no Paraná, por exemplo), como de outras religiões. Acredita que algo parecido possa ocorrer por aqui?
É importante as pessoas entenderem que a imigração transforma a sociedade e que sociedades estão em constante mudança. No tempo das imigrações de massa no Brasil, esse era o caso. Desde a Segunda Guerra, houve muito pouca migração ao Brasil e só nos últimos anos isso se reverteu. Acredito que o Brasil precisa se reinventar como país de imigração. Na Alemanha e na França, no momento, a xenofobia é mais forte em regiões onde quase não há imigrantes. Eu percebo o perigo de uma atmosfera xenófoba em determinadas camadas da sociedade brasileira. Mas, ao mesmo tempo, eu acredito que a convivência multicultural e a lembrança das raízes migratórias da sociedade brasileira podem ser um corretivo poderoso.


