A euforia revolucionária do MST - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
Muito justamente o Paraná foi chamado de celeiro do Brasil. Sua produção agrícola brotou da terra fértil especialmente encontrada no Norte do Estado em tons de chocolate, em matizes de vermelho profundo. E assim, deste solo abençoado pela natureza, eclodiram com generosidade telúrica as mais variadas sementes, alimento dos homens, fartura divina.
Mas não bastava a terra. E o celeiro tornou-se viável através da organização do campo, do trabalho sério, árduo, competente, desenvolvido através de gerações de agropecuaristas. Tal processo faz do Paraná de hoje um dos baluartes do agronegócio no País, e deste modo, o setor não só atinge sua meta básica de fornecer alimentos para as populações urbanas, como integra a cadeia produtiva que se estende para além da porteira da fazenda e se espraia pela sociedade, gerando renda e trabalho, estes pilares da prosperidade de um povo. Além disso, com alcance não só no mercado interno como no externo, o agronegócio está sendo capaz de se impor em âmbito mundial, o que significa o salto de ultrapassar as fronteiras do País para integrar o Brasil na economia globalizada do século 21.
Exatamente por tudo isto, o Paraná tem sido ponto de concentração das invasões do MST, cujos ultrapassados objetivos stalinistas incluem destruir a ordem social, pisotear a lei, violentar a democracia e impedir o progresso gerado pelo capitalismo liberal para tentar impor o fracassado modelo socialista, naufragado onde quer que tenha sido implantado.
Os métodos do MST para a consecução de tais objetivos são variados, mas sempre revestidos de violência, a parteira das revoluções como pregou o profeta Marx. Vão estes métodos desde a invasão de propriedades rurais, inclusive as produtivas, em flagrante desrespeito à Constituição, que garante o direito de propriedade, até o simples achincalhamento da lei de todas as maneiras, na medida em que os sem-terra pilham, destroem sedes e maquinários, matam gado, ateiam fogo às pastagens, ameaçam e chantageiam produtores rurais.
Tudo isso tem ocorrido sob o olhar complacente das autoridades constituídas, que temem repercussões políticas negativas para seus intentos eleitorais. Na verdade, o mínimo freiamento de tais absurdos e desmandos desencadeia por parte das lideranças do MST apelos a entidades internacionais do gênero politicamente correto, aumento de notícias nos meios de comunicação, com acento para a vitimização dos oprimidos, invasões de prédios públicos, interdição de rodovias, passeatas, concentrações etc. Vale tudo como meio de pressão, intimidação ou represália.
Enfim, o MST, além de se impor por seu peculiar terror revolucionário, que leva inquietude e incerteza ao campo, tornou-se perito em estardalhaço e distorção dos fatos, sendo nisto amplamente amparado pela imprensa. Fortalecidos pela impunidade, seus líderes não toleram nenhuma intervenção em suas ações, e assim, quando a Dra. Elizabeth Khater, juíza da Comarca de Loanda, no cumprimento da lei e de seu dever, ordenou reintegrações de posse de terras, sendo que alguns destes mandados aguardavam há longo tempo para serem cumpridos, tornou-se psicologicamente refém do MST. Ela está sendo intimidada, denegrida por calúnias fartamente noticiadas e, para culminar, ameaçada de morte, coisa que um dos caudilhetes do MST disse ter sido uma piada. Sem esmorecer, essa mulher de coragem afirma que apenas sempre observou a lei, e isto deve ter enfurecido ainda mais aqueles que têm como meta o desrespeito à lei para que sejam facilitados seus retrógrados desígnios revolucionários.
Mas a juíza é uma exceção. De modo geral, os sem-terra parecem se situar acima da lei. Podem matar-se uns aos outros, assassinar seguranças de fazendas, ou mesmo pessoas inocentes. Nada lhes acontece. São sempre as vítimas e não algozes, e os direitos humanos são invocados só para eles. E quando raramente alguns deles vão parar na prisão pelos crimes cometidos, a pressão desencadeada pelo Movimento - como a que agora se vê na aglomeração de sem-terra e de sem-que-fazer diante do Palácio Iguaçu - tem o poder de soltar qualquer bandido desde que ele seja um companheiro.
Portanto, tranquilize-se, Benedito Poian. Este, conforme noticiado no dia 18, não agiu em nome de sua revolução particular, mas por pura ganância pessoal. Ao não ser atendido quando cobrou uma dívida de Yoshiji Haraguchi (em Assaí), de quem tinha sido empregado, golpeou o velho de 71 anos, assim como sua mulher Heko Haraguchi, de 57 anos, com uma chave de roda de trator. Não satisfeito, e conforme ele mesmo explicou, colocou sacos de plásticos na cabeça do casal dos velhos descendentes de japoneses para não sujar a casa. Muito cuidadoso, como se nota, este oprimido sem-terra, que deve ter considerado seu crime bárbaro e executado com requintes de crueldade como mais uma piada para ser contada na invasão do Sítio Esperança Vale Verde, em Ibaiti, onde estava acampado com outros companheiros. E com certeza, em breve Benedito Poian será solto. Afinal, ele tem direitos humanos, pois é um sem-terra.
De tão eufórico com sua força e crescimento, o MST não esconde mais aquilo que eu venho analisando há anos. E isto ficou claríssimo nas normas e diretrizes emanadas do Curso de Capacitação de Militância do Cone Sul, realizado recentemente em Sidrolândia (MS). Segundo o MST e a Coordenadoria Latino-Americana de Organizações do Campo (Cloc), a meta através da Via Camponesa, é ocupar espaços por meio de mobilização de massas e tomar o poder. Ocupar a terra para trabalhar é uma posição já superada. A disputa fundamental não se dá mais entre os sem-terra e os fazendeiros, mas sim entre os sem-terra e o Estado. Portanto, eles se consideram a alternativa para o modelo neoliberal e bradam eufóricos: Hasta la victoria siempre! Parece um filme antigo, cujos resultados não foram nada bonitos de se ver.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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