É legítimo o entusiasmo brasileiro pela reinvestida na produção de álcool etílico (o etanol), mas algumas precauções devem ser tomadas. Uma delas, que a cana-de-açúcar não venha a diminuir a produção de grãos e de outros produtos alimentares. Como a extensão de terras no Brasil é vasta, havendo ainda muitas áreas limpas por explorar (sem necessidade de desmatar), no momento a invasão das novas culturas não irá preocupar. A extração de álcool mais lucrativa, para este país, é a proveniente da cana, por isso é preciso acautelar-se com a intensificação das áreas cultivadas e, por consequência, da queima das palhadas - uma prática comum antes do corte - porque isto aumenta a poluição. Será uma incoerência produzir esse combustível menos poluente e poluir a atmosfera pelo processo de produção.
Os Estados Unidos extraem o etanol do milho, um cereal largamente cultivado no país, e a Europa faz o mesmo por via da beterraba. No dizer do presidente Lula, o milho deve ser dado às galinhas, o que faz sentido se esse conceito for elevado para o consumo humano. O milho é uma segunda opção brasileira para a produção de etanol e já empolga os produtores rurais. No Estado de São Paulo, maior plantador de cana, a associação dos produtores preocupa-se com a possível centralização do cultivo em mãos dos próprios usineiros. A onda de aquisição de terras por estrageiros, para esse plantio, e as fusões com usinas, alertam a organização Orplana, que reúne os plantadores particulares. Hoje as usinas já produzem 70% da cana destinada a açúcar e álcool, e essa associação se mobiliza para evitar que o volume se amplie e ocorra um domínio de mercado, com prejuízo para os produtores, aí incluídos os pequenos.
Uma eventual corrida desordenada para essas novas frentes de produção podem gerar problemas paralelos. O aspecto positivo é, naturalmente, a possibilidade de aumento de renda para o produtor rural, para a economia do País e para a balança das exportações, e ademais o Brasil pode vender tecnologia nesse campo, em todos os seus vários segmentos. A perspectiva é que o País pode dobrar e até triplicar a produção de álcool carburante nos próximos quinze anos (só em 2007 haverá aumento de 7% da produção), o que significará também mais reserva de combustíveis fósseis - de que o Brasil é grande produtor. Pode-se imaginar uma baixa do preço interno dos combustíveis, o que baratearia também o custo dos produtos em geral. (Isto já poderia ocorrer hoje, porque o Brasil é auto-suficiente em produção de combustíveis, e eles estão exageradamente altos para o consumidor).
O momento é de justificado entusiasmo nacional (e o etanol foi um dos itens que trouxeram ao Brasil o presidente George Bush). Com 20 anos à frente dos demais países na produção de álcool automotor e na prática de adicioná-lo à gasolina, os brasileiros têm em mãos todos os trunfos. Depois dos tropeços com o Pró-Álcool, o caminho percorrido oferece agora mais segurança para o investimento.

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