O que é público e o que é privado? Esta questão, semanticamente, é antagônica e fácil, numa primeira análise, de ser respondida. Torna-se polêmica e complexa nos dias atuais, principalmente em relação ao estágio avançado e à instantaneidade dos meios de comunicação de massa. Mais notadamente nos ditos programas populares de TV, ou como preferem os teóricos, ‘‘mass-media’’, ‘‘comunicação do grotesco’’.
Mas, os olhos preconceituosos de parte das entidades que recentemente fizeram um protesto contra nós no Calçadão de Londrina preferiram generalizar e, como consequência, foram injustos ao rotular o programa ‘‘Acontecendo’’ como se fosse mais um a explorar ‘‘as mazelas de uma sociedade e o drama dos menos favorecidos pela sorte’’, para usar termos bem ao gosto da classe política que, aliás, orquestrou o manifesto, diga-se de passagem, fracassado tanto em presença de público como em termos de conteúdo ou representatividade das classes presentes.
Faltou ética sim ao próprio Sindicato dos Jornalistas de Londrina, que na mesma semana conduziu pela porta dos fundos à nobre condição profissional alguns iletrados que não possuem ao menos o primário e que hoje ostentam o registro de jornalista, denegrindo toda a classe de profissionais formados pela prática, mas com preparo digno, e outros que passaram por faculdades e, com dificuldade, conseguiram se formar, no sentido amplo do termo.
De que serve então a nossa Universidade Estadual de Londrina, por onde passaram muitas das cabeças do jornalismo paranaense e brasileiro? Com certeza, essa contradição, tão ao gosto dos ideólogos socialistas, pode ser explicada pelo Sindicato, que deveria estar mais atento em relação às conquistas profissionais da classe ou na fiscalização de irresponsáveis que empunham microfones no rádio e na TV sob a complacência dos ‘‘legítimos’’ (?) representantes da classe.
A definição de invasão de privacidade, como diz o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, depende do ângulo enfocado. A princesa Diana só gostava de ser fotografada quando estava visitando vítimas das minas explosivas do Sudeste Asiático ou famintos da Etiópia e até quando posava com vestidos de grifes em festas pelo mundo inteiro. Sempre que seus supostos namorados foram clicados pelas lentes dos ‘‘papparazzi’’ ela fugia e tentava evitar. Como diz o também jornalista Alberto Dines, ‘‘nós, jornalistas, somos usados inconscientemente’’. A linha que separa o público do privado é muito tênue e vivemos no fio da navalha.
Em relação à exploração do cadáver violado no Cemitério Jardim da Saudade, que motivou o protesto, existe uma inversão de responsabilidade. Em nenhum momento, o ‘‘Acontecendo’’ identificou o corpo da vítima, como se queixa a família. Não seria mais prudente cobrar providências da Acesf (Administração de Cemitérios e Serviços Funerários), que deveria zelar pelos jazigos, ou mesmo da Polícia, que investiga o caso e que até agora não tem nenhum suspeito?
Não estou responsabilizando ninguém. Todos são vítimas de um maníaco que vem cometendo essas atrocidades no local há cinco anos. As imagens foram chocantes, mas todos foram alertados sobre o que iriam assistir. Todas as emissoras de TV estiveram no local e mostraram as imagens. Mas houve repercussão exatamente do programa que é líder de audiência no horário.
Lamentamos que a família da vítima esteja sendo usada por profissionais que deveriam se preocupar com o nu explícito da ‘‘Banheira do Gugu’’, do sushi erótico do Faustão e da falta de respeito dos políticos que com a força do poder econômico calam vozes e compram a mídia. Estes que criticaram limitam-se a protestar contra um simples jornalista que conseguiu credibilidade trabalhando duro e falando a verdade. Vou continuar cobrando para que a solução deste caso seja encontrada. Se algo não for feito com urgência, esse desequilibrado mental voltará a agir.
Em relação ao Sindicato dos Jornalistas: os membros de sua diretoria deveriam agradecer e até homenagear aqueles profissionais que conquistam audiência relatando o nosso dia-a-dia de forma séria e comprometida com a verdade, já que em outros canais os enlatados e noticiosos preferem entorpecer os telespectadores com receitas de bolo e notícias de nascimento de canguru num zoológico da Austrália.
No nosso programa, nunca ouvimos apenas um lado da notícia; temos critério na exibição de imagens que possam prejudicar pessoas inocentes; todos os acusados têm direito de se defender e não forjamos imagens ou fatos. Apenas os repercutimos. O programa ‘‘Acontecendo’’ já internou diversos jovens viciados em clínicas de recuperação, já distribuiu cestas básicas, cadeiras de roda, remédios, aparelhos dentários, fez cirurgias. Até perdemos a conta disso tudo.
Não seria preciso haver programas como o de Barbosa Neto se a Justiça fosse célere, se o Estado zelasse pelo cidadão como manda a Constituição, se os direitos humanos fossem respeitados. Mas, o que falta para muitos jornalistas é um banho de realidade, longe das Redações ou do ar condicionado e do carpete dos gabinetes das autoridades que não enxergam o sofrimento dos mais pobres.

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