A ética do bicho
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de janeiro de 1997
Rubem Azevedo Lima 
Um dos principais líderes políticos do PSDB, o governador Mário Covas, de São Paulo, ao fundar esse partido ajudou a lhe dar respeitabilidade, pois ligou sua tradição pessoal de homem público profundamente ético à imagem da nova agremiação. Mas Covas parece, hoje, que começa a entregar os pontos, dando sinais de menos intolerância face aos correligionários que cometem deslizes éticos. Ele talvez note, com tristeza, que o partido com o qual sonhou não corresponde ao que se criou, desde as profundezas de seus subterrâneos aos salões de luxo em que estão os que conquistaram o poder, através dele.
Há tempos, Covas opôs-se ao casuísmo da emenda constitucional que possibilita, na prática, a reeleição de um presidente eleito sob a cláusula da irreelegibilidade no período subsequente. Na Constituinte, Covas e os futuros tucanos vetaram a reeleição.
Agora, falando à televisão, Covas admitiu curvar-se, no caso, à vontade majoritária do PSDB. Logo Covas?! No início da Constituinte, ele não cruzou os braços e fez um discurso emocionante, que lhe valeu a conquista da liderança da Assembléia. Despontou, então, como candidato à sucessão de Sarney. Interesses supervenientes, em 1989, levaram o mais forte grupo de comunicação do País a apoiar a candidatura de um aventureiro. Covas foi um dos sacrificados por aqueles interesses, mas fez uma campanha limpa, sem promessas absurdas e demagógicas aos eleitores.
Derrotado, ele voltaria a brilhar na CPI do Orçamento, pondo sua palavra, sem rancor, a serviço da busca da verdade. De novo, pois, não cruzou os braços. Isso o fez merecedor do reconhecimento do eleitorado de São Paulo, em 1994. Antes, porém, seu verbo candente impedira alguns correligionários afoitos, entre os quais o atual presidente, de aceitarem cargos num governo que começava a chafurdar na lama.
Portanto, Covas nunca se omitiu em momentos de crise ou de dúvidas. Por que omitir-se agora e esperar que as ambições de pequenas sobras do PSDB - preocupados apenas em saciar-se de poder - tracem os caminhos à sua consciência? E isso quando um dos políticos mais anatematizados do País, em razão de seu pragmatismo, o ex-prefeito Maluf (não importa se o faz porque sonha com a presidência em 1998, um pleito previsível há quase dez anos) resolve jogar limpo.
Dizerem, como dizem, que só agora Maluf está falando em ética porque isso é o que lhe convém, mostra apenas quanto a ética dos defensores da reeleição é, na verdade, antiética. O governador Covas tem, nesse episódio, o direito de decidir como quiser, pois está diante de uma questão de interesse nacional. O que não pode é esperar que os outros decidam por ele. Principalmente se quer, com sinceridade, que o PSDB não seja instrumento da ambição de ninguém, mas do desenvolvimento do povo brasileiro, dentro de princípios éticos que não valham menos do que os talões de apostas do jogo-de-bicho.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


