Em 1984 o ministro da Saúde, Waldyr Arcoverde, tomou um susto com os resultados de uma pesquisa que encomendou: ele queria saber, entre outras coisas na área da sua Pasta, quantas crianças poderiam morrer naquele ano antes de completar um ano de vida. Segundo o estudo, morreriam cerca de 308 mil crianças. No mesmo ano Arcoverde soube através do Fundo das Nações Unidas de Socorro à Infância (Unicef) e da Organização Panamericana de Saúde (Opas) que morriam diariamente no Brasil cerca de 1.000 crianças, vítimas principalmente de doenças transmissíveis, como meningite, sarampo e problemas intestinais.
O ministro não discutiu os números trágicos. Sabia pelos relatórios que ‘‘a saúde da maioria da população ia de mal a pior em função do fracasso da política de saúde do Brasil’’, pela qual seu ministério era uns dos órgãos responsáveis.
Hoje, 14 anos depois, a política de saúde brasileira continua ruim, capengando, como mostrou recentemente relatório da Organização Mundial de Saúde. ‘‘É muito alto o número de mulheres que morrem no Brasil em decorrência das complicações na gravidez ou no momento do parto. De cada 130 mulheres que engravidam no país, uma morre. Essa taxa absurda é cerca de 60% maior que a média latino-americana.
Enquanto nossa matemática social é cada vez pior na saúde, os recursos para assistência continuam faltando para a área, como também era em 1977, quando foi criado o INAMPS. O instituto comprava 300 mil leitos particulares e oferecia na rede pública apenas 7.800.
De distorção em distorção, o Sistema Integrado de Saúde (SUS) beneficia muito mais habitantes das regiões mais ricas, onde existem mais equipamentos e instalações médicas, do que os de regiões mais pobres. É a oferta de serviços médicos e não as necessidades da população que determina a orientação dos gastos públicos em saúde. E o grande provedor dessa oferta é a medicina privada.
Seria equivocado culpar a medicina privada por essa situação. E pensar que seria fácil melhorar a rede nacional e pública de atendimento para que funcionasse de forma mais eficaz, a um custo menor. Infelizmente, continuamos a manter no país uma política de saúde que facilita a ocorrência de corrupção, os desvios de recursos e que privilegia a medicina curativa.
Creio que nossa política de saúde só caminhará mesmo para um rumo equilibrado quando entendermos que a saúde das pessoas depende antes de tudo de como elas ganham a vida, como trabalham, o que comem, quanto ganham, em que gastam o seu dinheiro e onde moram. O caminho é a saúde preventiva.
A ótica míope para fazer política de saúde é que deixa um Hospital de Clínicas como o de Curitiba ameaçado de fechamento. Dinheiro existe para a saúde. Ministros podem ser trocados quando os interesses políticos falam mais alto. Será que não estaria na hora de mudarmos a política de saúde? Também não adiantará muito arranjarmos um tributo que substitua o CPMF. Mulheres grávidas continuarão correndo um sério risco de vida para trazer mais um brasileiro ao mundo.

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