A estranha morte do rapaz gente boa
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de setembro de 2003
Equipe da Folha 
Moradores das ruas Sabiá, Azulão, Cardeal, Tiziu e Avenida Beija-Flor, e outras do Portal da Foz, têm a mesma opinião sobre Adair de Souza, 24 anos. Eles viram o rapaz crescer, trabalhar desde cedo, fazer brincadeiras com a vizinhança. Filho mais velho, cresceu ajudando a pagar as contas da casa. Tal histórico o transformou no orgulho da família.
Foi justamente por causa desse perfil de bom menino que sua morte na noite de 26 de outubro de 2002, uma véspera de eleição, chocou a comunidade local. ''O que teria acontecido?'' A Polícia Militar tem a resposta. Adair e seu colega Junimar da Silva Amado, 20, estavam perto de casa quando ''reagiram a uma abordagem a tiros e morreram num embate armado com a PM''.
O cabo Sidnei Rodrigues Goulart e o soldado Fábio Pacifico Santos detalharam o episódio em seus depoimentos. Eles estavam em patrulhamento no bairro Três Lagoas, região do Portal da Foz, quando receberam informações de um assalto cometido por dois homens. Minutos depois encontram duas pessoas com as mesmas características e trajes dos ladrões.
Os suspeitos teriam tentado fugir, mas foram cercados num terreno baldio. Acuados, teriam atirado, levando os policiais a reagir. ''Enquanto os dois efetuavam os disparos e tentavam correr, os policiais revidavam. Assim que os marginais tombaram, os policiais foram até o local onde estavam os corpos'', descreve o inquérito.
Os dois foram socorridos pelo Siate, mas morreram no hospital. O laudo do IML é preciso em apontar a causa das mortes. Adair levou um tiro no ouvido direito e um tiro perto da orelha direta, ambos com sinais de esfumaçamento. Levou ainda um tiro nas costas, um tiro no lado direito do peito e um tiro no punho direito. Junimar foi atingido na clavícula e no ombro direitos.
Uma das pessoas ouvidas pela Folha conta uma história diferente da versão oficial. Segundo José da Silva, nome fictício, Adair estava em casa quando foi convidado por Junimar para ir ao bar. No caminho, a polícia teria atirado em Junimar, depois atirou em Adair, que estaria imobilizado. Ambos não tinham antencedentes criminais.
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil. O 5º Distrito Policial concluiu que há provas de ''crimes de roubo qualificado e resistência, praticados por Adair e Junimar''. Detalhes: 1) a dona de uma farmácia - indicada pela PM como vítima da dupla - e dois funcionários do hotel ouvidos pela polícia não reconheceram Adair e Junimar como os suspeitos do assalto.
Em 26 de março, a promotoria determinou a retificação do relatório do delegado. O inquérito tramita na 3 Vara Criminal. A Folha não conseguiu acesso a Justiça Militar. Um projétil retirado da cabeça e outro do punho de Adair foram mandados à perícia (não foi encontrado projétil em Junimar). Mas a balística, se realizada, não foi anexada aos autos.


