A esquerda precisa se endireitar
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de fevereiro de 1997
Gaudêncio Torquato 
Sem querer apenas fazer jogos de palavras, a esquerda precisa se endireitar. Acertar o prumo, voltar aos trilhos de onde saiu, arrumar a casa, desde que Lula jogou a toalha, Brizola se aposentou, Cristóvam Buarque se conscientizou da prática política, Vítor Buaiz se amaciou e Arraes se acomodou lá pelos arraiais de Pernambuco. Se a esquerda não conseguir, em médio prazo, formatar um projeto de poder, estará cedendo espaço a um vasto plano hegemônico, comandado pela atual estrutura, que tem como sustentáculos os grandes partidos da base governamental.
O plano que se esboça na esfera governista leva em consideração a manutenção das atuais forças partidárias, com leves tendências de crescimento de um ou outro partido, sem alterações de vulto que possam romper o fio do equilíbrio interpartidário. A interferência direta do presidente Fernando Henrique no sentido de desaconselhar a formação de grandes blocos se insere na estratégia de manutenção horizontal de pêndulo partidário, condição primordial para que um partido não venha a ter ciúmes com o crescimento do outro. Ou seja, na parte de cá, ajeitam-se as coisas, acomodam-se os interesses, amoldam-se as estruturas. Na parte de lá, das oposições, tudo parece confuso.
E a fumaça que cobre os grupos oposicionistas provem de uma imensa fogueira, que consome os seguintes tipos de lenha:
- a falta de unidade - as esquerdas não se solidarizam nem na dor, fato que transforma seus partidos em unidades autônomas, direcionadas a projetos unitários e particularistas. Mesmo após as derrotas, não conseguem juntar forças para definir estratégias;
- a ausência de um projeto de poder - as esquerdas não conseguem esboçar um projeto de poder. Perplexas com o revigoramento do situacionismo, não sabem para onde querem ir, como devem andar, que alianças promover e quais as circunstâncias em que devem atuar;
- a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento - nenhum partido de esquerda conseguiu formar um projeto alternativo de desenvolvimento, definir linhas, estratégias, eixos, programas e projetos. Por isso mesmo, o discurso das esquerdas assume, invariavelmente, a conotação sentimental-recalcada, distante dos planos racionais;
- variações em torno da melodia socialista - após o debacle da utopia socialista e o amalgamento dos campos doutrinários da social-democracia, liberal-socialismo, liberalismo de caráter social, as esquerdas continuam querendo ensaiar variações em torno da melodia socialista, conseguindo apenas desafinar as orquestras;
- o encontro com a verdade - na hora da onça beber água, ou seja, quando os governadores petistas chegaram ao poder, sentiram de perto a distância entre o discurso e a prática. Mudaram de tom e de postura, afastaram radicais, distanciaram-se de exigências absurdas impostas por seus partidos e passaram a dar vazão a conceitos situacionistas, como enxugar folhas, conter grupos corporativistas e radicais, preservar condições de governabilidade;
- adeus aos grandes caciques - com a morte de Darcy Ribeiro desaparece um símbolo da esquerda que estava acima do bem e do mal. Restam Brizola, uma voz em aposentadoria; Arraes, que está passando a herança política para um neto; João Amazonas, como emblema do passado. Lula é uma incógnita;
- o estrelismo dos novos - José Genoino é bom, mas é um poço de vaidades. Só ele está certo. Miro Teixeira está com a estrela apagando; Tarso Genro, o melhor do quadro do PT, tem grandes chances. José Dirceu ostenta perfil muito briguento para ser presidente de partido. Suplicy faz barulho por quase nada. Os teóricos Paul Singer, Luciano Coutinho e Francisco Oliveira têm papel limitado. Para cumprir realmente seu papel, a única alternativa da esquerda é a de se endireitar.


