Existe a crendice segundo a qual ser de esquerda significa ser honesto, puro de coração, defensor dos humilhados e oprimidos. Uma espécie de aura de santidade circundaria a cabeça dos esquerdistas, fazendo com que eles se sintam como salvadores da humanidade. Assim, além de ser chique ser de esquerda, não compartilhar com o credo marxista pode significar a ruína dos que se atrevem a ter opinião própria. E isso se dá, especialmente, em meios como o universitário, o artístico, o religioso e o ligado à mídia, capazes de lançar como maldição o estigma de mau caráter contra os que ousam externar opiniões diferentes da surrada utopia revolucionária.
Evidentemente, santidade e heroísmo são artigos raros nesse mundo, especialmente em nosso país. Não temos nenhum santo reconhecido pelo Vaticano, e os nossos são pinçados no meio esportivo, quando não são reconhecidos entre bandidos, como na triste estória do jovem Leonardo Pareja, entronizado nas páginas amarelas da revista ‘‘Veja’’. Mesmo assim, a esquerda se sente santa e heróica. Entretanto, no máximo pode-se dizer que existem duas espécies de esquerda: a oportunista e a convicta.
A espécie oportunista, que normalmente compõe a cúpula, como em qualquer espectro ideológico, utiliza-se da espécie convicta em proveito próprio. Isso é fácil, na medida em que esta é adotada do fanatismo embotante que impede o raciocínio individual e tolda a realidade com dogmas e equívocos, o que é frequentemente confundido com idealismo. Para compreender melhor a psicologia da esquerda, recorramos novamente ao ‘‘Manual do perfeito idiota latino-americano’’.
Na apresentação do Manual, feita por Mario Vargas Llosa, encontra-se de forma completa o perfil, sobretudo, da espécie convicta, a qual padece daquele tipo de ‘‘idiotice’’ pelo qual a maioria da juventude de décadas anteriores já passou, e que ainda hoje grassa em certos meios intelectuais como bares da moda. Não se trata da ‘‘idiotice congênita, essa natureza do intelecto, condição do espírito ou estado de ânimo’’. A classe desse idiota ‘‘desperta afeto e simpatia, ou, no pior dos casos, comiserações’’. Na sua pureza e inocência, há a suspeita ‘‘dessa coisa terrível chamada pelos crentes de santidade’’. Mas a idiotice da esquerda é de outra índole. ‘‘É postiça, deliberada e eleita, se adota conscientemente, por preguiça intelectual, modorra ética e oportunismo civil. Ela é ideológica e política, mas acima de tudo, frívola, pois revela uma abdicação da faculdade de pensar por conta própria, de cortejar as palavras com os fatos que se pretende descrever, de questionar a retórica que se faz às vezes de pensamento’’. Esta idiotice ‘‘é a beataria da moda reinante, é o deixar levar-se sempre pela corrente, a religião do estereótipo e do lugar comum’’.
Não creio que a esquerda oportunista, que se encontra nas cúpulas e configura lideranças, possua todos esses traços, tão acentuados na esquerda convicta, apesar de ambas possuírem em comum o ‘‘oportunismo civil’’. Mas o que as distingue basicamente é o fato de a esquerda oportunista saber que não é santa, apesar de se fazer passar por santa. E isso faz a grande diferença entre as duas espécies. Vejamos alguns exemplos do que se afirma:
Recentemente, a comissão de sindicância do PT, que apurou as denúncias do militante Paulo de Tarso Venceslau sobre a contratação irregular da CPEM por prefeituras petistas, deu claras demonstrações de que está longe da santidade. Levou a pior o denunciante, cuja conduta foi considerada caluniosa e louca. Já Roberto Teixeira, também filiado ao PT e proprietário da casa em que mora o compadre Lula, e que teria usado da amizade deste para intermediar as contratações da CPEM da qual um dos donos é seu irmão, foi acusado pela comissão de ‘‘abuso de confiança‘‘. Nada foi dito sobre Lula, o candidato à presidência da República acima de qualquer suspeita. Como mais ainda foi veiculado pela mídia, que silenciou como se tudo tivesse sido esclarecido, conclui-se que o PT serviu à sociedade uma enorme pizza, feita com a mesma receita das maracutaias alheias que tanto critica.
Mais recentemente em Porto Alegre, no encontro das esquerdas latino-americanas, um Lula esfuziante apareceu em fotos de jornal. Como porta-voz da reunião, proclamou a seguinte estultice: quem morreu foi o capitalismo neoliberal e não o socialismo, sistema que ressuscita no mundo inteiro. Portanto, obteve-se no encontro o triunfo da retórica sobre a realidade e, assim, criou-se o dogma para ser impingido à esquerda convicta e aos incautos. Para não dizer que não se apresentou nada de concreto, ao neoliberalismo foi oposto o nacionalismo, uma coisa com cheiro de Hitler e ares de santidade. E isso deve ter deixado os Stédile da vida em estado de graça. Foi um encontro que deve ter funcionado como um spa ideológico. Nele as viúvas do socialismo reviveram as delícias do totalitarismo e sonharam novamente, enquanto se esquecia o fracasso do movimento ‘‘Abre o olho, Brasil’’. Mas, seguramente, aquela não foi uma reunião de ‘‘santos’’, em que pese os beatos da esquerda convicta acreditarem que foi.

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