A espiritualidade no ambiente dos negócios e do trabalho
A dificuldade de se misturar vida profissional com vida pessoal não é a única que se apresenta na sociedade atual, já que outros confrontos têm sido frequentes e permanentes no cotidiano de todos nós. Outras misturas têm se mostrado igualmente conflituosas e, portanto, difíceis de se lidarem, já que conciliar trabalho com o restante da vida social é apenas um dos fragmentos do todo que ainda temos por misturar, e que em geral se apresentam como problemas com os quais não sabemos como lidar.
Corpo versus alma; profano versus sagrado; fé versus ciência; temporal versus celestial; o transcendente versus o factível; o finito versus o infinito; o material versus o espiritual; o mecânico versus orgânico; racional versus emocional; a insatisfação insaciável versus a plenitude de bem-aventurança; a vida secular versus a vida monástica; o tangível versus o intangível; o concreto versus o abstrato; o místico versus o aparente; o inefável versus o palpável; o insondável versus o tocável; o imponderável versus o calculável; são alguns dos conflitos que vivemos e temos dificuldades de administrar, quer seja por desconhecimento, quer seja por preconceitos, ou ainda por falta de vontade interior de encarar e enfrentar estes dilemas.
De uma forma geral, trata-se de um embate entre o temporal e o eterno e, quem sabe, seja este o xis da questão: como lidar com uma equação onde uma das incógnitas é intangível? Enfim, temos dificuldade de lidar com tudo o que é imaterial.
Mas, parece que aos poucos a sociedade está encontrando caminhos de aproximação para a conciliação dessas tensões. Um dos exemplos é a relação entre espiritualidade e os negócios, ou o ambiente de trabalho. Há sinais de que ambos estão se avizinhando e, mais do que isto, tentando uma convivência harmoniosa, prazerosa. Até vantajosa, apesar de todas as barreiras iniciais que o assunto provoca. A primeira, talvez a maior, por conta da confusão que se faz de imediato entre espiritualidade e religião; a segunda, pela ideia preconcebida que, assim como óleo e água, espiritualidade e negócio não se misturam.
Sabe-se de antemão, que não é fácil a tarefa de furar o bloqueio estratificado ao longo de uma cultura especialista e tratar da vida por meio de dicotomias perenes, e que também, dada a complexidade que envolve o assunto, pode-se dizer que no momento há mais questionamentos a serem feitos do que respostas definitivas a serem oferecidas. Este é justamente o desafio proposto: quebrar alguns paradigmas e apresentar considerações convergentes e convenientes a respeito.
A ânsia que o ser humano tem do transcendente, certamente, fará que cada vez contribua para que, em meio aos negócios, a fé e a vida nos levem a termos ambientes de trabalho cada vez mais espiritualizados, para o bem de todos.
CARLOS ALBERTO BRAILE é professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, campus Londrina
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