A esperança é a última que morre... - Sérgio Henrique Schmitt
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de novembro de 1997
Sérgio Henrique Schmitt 
Descobrir sólidos argumentos materiais da prática de respeito à cidadania nos dias atuais é muito difícil. Porém eles existem, mesmo em circunstâncias políticas que geram polêmicas. Foi o que vi claramente na semana retrasada na tentativa de inauguração da Vila Rural da Paz, em Rolândia.
Durante a espera da presença do governador Jaime Lerner, idealizador do programa e que acabou não comparecendo por culpa do mau tempo, desloquei o olhar para as 34 famílias beneficiadas e lembrei da fazenda Canaã, com 700 alqueires de café e um colonato com 25 casas, em Astorga, onde nasci. Os rostos eram os mesmos, expressavam esperanças de dias melhores.
A realidade comparada é diferente. Naquela época o esforço árduo dos trabalhadores rurais, vindos dos mais distantes cantos do País e do exterior, cumpria a finalidade do megaprojeto imobiliário da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná em colonizar as novas terras paranaenses.
Seu objetivo era explorar ao máximo o trabalho disponível no desmatamento e implantação da cultura cafeeira para atender os então interesses da economia paulista e internacional e, principalmente, a formação de núcleos habitacionais neste sertão de plena floresta. Um empreendimento privado com a ideologia do capitalismo tardio: pagou bagatela pelas terras, agrediu de forma rápida e profunda o meio ambiente, mapeou as ocupações rural e urbana, vendeu caro os lotes e largou a população ao próprio destino...Pioneiros vencedores e anônimos vencidos hoje convivem no mesmo espaço das pequenas, médias e grandes cidades do Paraná e do Brasil.
A Vila Rural retoma a história de mais de meio século e começa pelo fim. Pega a população excluída do progresso, localizadas nas periferias marginais urbanas e insere numa nova realidade. Disponibiliza sua mão-de-obra para atender as atividades assalariadas rurais e lhe dá abrigo em unidades residenciais básicas e decentes no campo. Nelas, libera uma área média individual para a produção de alimentos de sobrevivência, venda de excedente e ocupando o trabalho da família sazonalidade agrícola.
A Vila Rural é, fundamentalmente, a subordinação da máquina estatal aos interesses da população carente. É o Estado e o município realizando em todo o Paraná um total de 300 Vilas Rurais com toda a infra-estrutura no atendimento das necessidades de aproximadamente 1,5 mil famílias contempladas no Programa.
A lágrima que rolou na face de uma mãe de família durante a aflita e frustrada espera de entrega daquela Vila Rural me leva acreditar que continua viva a esperança do paranaense pobre de uma existência digna no campo...e quem governar o Paraná que lembre disso.


