Para marcar a Semana Nacional de Doação de Órgãos, o Ministério da Saúde anunciou investimento de R$ 76 milhões em ações visando aumentar as captações e transplantes no País. A meta do governo é aumentar em 20% o número de procedimentos realizados em todo o território nacional.
Em 2009 foram realizados 20.253 transplantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A fila de espera, no entanto, atinge 60 mil pacientes. Ainda assim, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking dos países que mais realizam transplantes anualmente, perdendo somente da Espanha.
Para o médico intensivista Joel de Andrade, do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, o repasse do Ministério da Saúde será um ''reforço interessante'' para aumentar o número de transplantes realizados no País. ''O governo paga as doações de órgãos, mas quase toda a verba está destinada a pagar o cirurgião que faz a retirada do órgãos e o hospital que doa. O problema é o profissional que busca os potenciais doadores'', aponta Andrade, que participou recentemente da Jornada de Captação para Transplantes de Órgãos e Tecidos, promovida pelo Hospital Evangélico de Londrina.
Como o senhor avalia o investimento anunciado pelo Ministério da Saúde para aumentar o número de transplantes de órgãos?
Hoje o investimento anual em transplante gira em torno de R$ 1 bilhão. O anúncio do ministério é um reforço muito interessante. A qualificação das equipes de coordenação hospitalar é uma das medidas mais importantes. No entanto, existem outras questões sérias a serem resolvidas, como a remuneração dos coordenadores hospitalares, responsáveis por encontrar potenciais doadores, que atualmente desenvolvem um trabalho adicional e sem remuneração específica. Os governos precisam decidir como vão fazer esse pagamento.
Diante dos inúmeros avanços científicos, por que muitas pessoas ainda resistem em doar órgãos?
O público leigo ainda tem dúvidas a respeito da morte encefálica, questionando se ela realmente existe e se há diferença entre a morte encefálica e a morte propriamente dita. Também existem questionamentos relacionados à seriedade do sistema de distribuição de órgãos. O ideal seria que essas dúvidas fossem sanadas por profissionais de saúde bem treinados dentro dos hospitais.
As instituições de saúde deveriam ter equipes capazes de levar informações corretas às famílias no momento em que elas recebem a notícia da morte de um ente querido. Essa prática acontece na Espanha, país que se destaca com o maior número de doações do mundo, onde a negativa familiar para doação gira em torno de 15%. No Brasil, a negativa é de 35%.
E qual a importância de campanhas educativas para estimular a doação?
As campanhas são necessárias, mas não suficientes. Vamos imaginar uma situação: a partir de amanhã todo mundo vai estar consciente e preparado para doar órgãos. Se isso acontecer, nós vamos nos confrontar com um problema, pois a população vai estar preparada, mas a estrutura pública de saúde não terá condições de receber toda a demanda. Por isso, defendo as campanhas aliadas a um programa de educação capaz de preparar de maneira rígida e adequada os profissionais para atuar nessa área.
O que mais falta para reduzirmos a fila de espera por transplante?
Algumas regiões do Brasil sofrem com a falta de equipes de transplante, como o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste. Já o Sul e o Sudeste têm um número adequado e até maior do que o recomendado, o que falta é aumentar os doadores.
No Sul e Sudeste o sistema de transplante está praticamente todo profissionalizado. A única parte que está descoberta é o financiamento das equipes de coordenadores hospitalares.
As instituições estão capacitadas para fazer a captação e o transporte dos órgãos?
Nas regiões Sul e Sudeste existem equipes estruturadas. Há problemas logísticos, mas eles não geram perdas significativas. Com o aumento do número de transplantes, as equipes estão ficando sobrecarregadas. Por isso, estuda-se a possibilidade de criar a figura do cirurgião especializado na retirada de órgãos.
O mito de que o incentivo do transplante poderia representar risco de aceleração da morte para aproveitar os órgãos ainda existe?
Sim. É importante ressaltar que antes do sistema de transplante temos um sistema de saúde que não quer criar vítimas. Pelo contrário, quando o indivíduo tem um traumatismo encefálico o sistema está pronto para evitar que ele morra. Todo esforço possível é feito para salvar o indivíduo. Mas ele pode evoluir para morte encefálica e é a partir desse momento que o centro das atenções muda. Antes o objetivo era salvar a vida do paciente e somente depois da morte o foco passa a ser o número de pessoas que podem ser salvas com a tragédia.
Apesar dos problemas enfrentados para aumentar o número de doadores, o total de transplantes aumentou 16,4% no primeiro semestre de 2010 em relação ao mesmo período de 2009. A que se atribui esse crescimento?
Esse avanço se deve a iniciativa do governo federal, dos estados e de algumas instituições que melhoraram o processo de formação dos coordenadores hospitalares. O governo paga as doações de órgãos, mas quase toda a verba está destinada a pagar o cirurgião que faz a retirada do órgãos e o hospital que doa. O problema é o profissional que busca os potenciais doadores.(Leia mais sobre o assunto no caderno Cidades)

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