A escolha da coerência
O professor Guilhon Albuquerque sugere que há uma aliança tácita entre Marta e Maluf para ambos disputarem o segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo, em detrimento do candidato Geraldo Alckmin. É salutar que professores universitários e intelectuais assumam posições partidárias e defendam candidatos, pois, com seu juízo analítico, esclarecem o eleitorado e ilustram o debate. Mas, no seu artigo Uma esperança para 2001, publicado em O Estado de S.Paulo, talvez movido pela paixão partidária, o professor Guilhon fugiu a esse propósito. Fugiu até mesmo à sua habitual forma ponderada de produzir análises e chegou a ser ofensivo ao PT e a Marta Suplicy.
O debate democrático pressupõe, em primeiro lugar, o reconhecimento das alternativas adversárias e opostas como postulações legítimas. Sem o reconhecimento e o respeito à diferença e à pluralidade não é possível avançar na afirmação da democracia. Somente a partir do reconhecimento do opositor como postulante legítimo se pode produzir uma crítica adequada, que aponte insuficiências, incapacidades, diferenças e até erros das alternativas que se pretende derrotar. O argumento desqualificador é, por si só, um argumento autoritário. Nega o outro pelo simples fato de ser outro, por ser diferente. Essa retórica da intransigência pretende elevar a opção própria à condição de única opção verdadeira, único bem possível a ser ungido ao altar do poder.
Não foi outra coisa o que o professor fez em seu artigo. Para ele, os adversários do PSDB representam dobradinhas perversas, fizeram gestão medíocre e atabalhoada, expressam óbvio despreparo, esforçam-se de forma indecente, suas candidaturas não têm qualidade e solidez, foram eleitos por acaso etc. Chega a ser deprimente que um intelectual da sua qualidade produza uma análise tão autoritária e agressiva.
Para o professor, o PT, em aliança tácita com o malufismo, seria o culpado pelas sucessivas derrotas dos tucanos na eleições municipais: de Fernando Henrique em 1985; de Aloysio Nunes em 1992; de José Serra em 1996. É estranho que o PSDB, com tantos estrategistas ilustres, em 15 anos de derrotas sucessivas não tenha aprendido a lição e desenvolvido táticas para derrotar a ardilosa e perversa astúcia dos seus adversários. Na verdade, os tucanos, sentados no trono da arrogância, incapazes de qualquer autocrítica, buscam nos outros a culpa por seus próprios fracassos e derrotas. Seria mais justo e ético que identificassem os seus erros e assumissem suas responsabilidades. O mestre da sociologia Max Weber ensinava que fugir das responsabilidades próprias, pondo a culpa nos outros ou no passado, impede qualquer ética e chega a ser algo abjeto.
Quando Guilhon afirma que Marta seria uma Erundina piorada, uma gestão atabalhoada, marcada pela agitação desenfreada, por falta de competência executiva, populismo e tibieza contra a desordem, ousa utilizar uma linguagem que nem mesmo a direita mais empedernida utiliza. Ergue, seguindo os passos do reacionarismo que historicamente vicejou no País, o fantasma do medo para bloquear opções autênticas e alternativas legítimas. Desrespeitando Marta e os mais de 30% dos eleitores, arvora-se em oráculo do futuro, decretando a falência prévia de uma provável administração petista. Nem sequer se digna a constatar que o PT vem produzindo as mais sérias e competentes administrações municipais do Brasil.
Guilhon se esquece também de registrar que o PT é o mais tenaz inimigo do malufismo. Em 1998, por exemplo, o PT não vacilou em indicar o voto em Covas contra Maluf no segundo turno das eleições para o governo do Estado. A mesma coerência antimalufista não pode ser ostentada pelo PSDB: em 1992 não apoiou Suplicy contra Maluf e em 1996 não apoiou Erundina contra Pitta. Ouve exceções honrosas e dignas, claro, entre outras, como a do governador Franco Montoro.
O PT nunca fez nenhuma aliança ou transação política com Maluf. O PSDB não pode dizer o mesmo. Recebido na calada da noite no Palácio da Alvorada pelo presidente Fernando Henrique, teve Maluf o benefício da rolagem dívida do Município de São Paulo. Em troca, Maluf apoiou a candidatura presidencial de Fernando Henrique em 1998 e participa de sua base de apoio. O que há não é uma aliança tácita entre o malufismo e o tucanato, mas uma aliança explícita.
Para compreender o que vem ocorrendo nas eleições em São Paulo é preciso perceber a divisão política e ideológica do eleitorado. Grosso modo, a leitura de várias pesquisas permite concluir que o eleitorado paulistano se divide em três faixas: uma de esquerda, outra de direita e uma terceira de centro. As duas primeiras são numericamente maiores em relação à última. É por isso que as eleições municipais têm sido polarizadas pelo PT e pelo malufismo. Nestas eleições, dado o desgaste da direita, o centro tem uma oportunidade ímpar de polarizar com a esquerda. Amanhã as urnas o dirão. Se isso não ocorrer, trata-se de uma inabilidade do centro e do PSDB. Inabilidade que pode ser explicada pelo desgaste dos seis anos de governo inoperante de Covas e Alckmin. Não convém, portanto, demonizar ninguém nem buscar culpados em searas alheias.
- JOSÉ GENOINO é deputado federal (PT-SP)





