Especialistas da área educacional no Brasil estão refletindo sobre os resultados das avaliações realizadas pelo MEC, que apontaram uma queda no desempenho dos alunos tanto na rede pública como particular. ‘‘A escola está cada vez mais chata, e o aluno cada vez mais dispersivo ou indisciplinado’’, afirmou o ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
Não houve reciclagem da escola, não há interação do professor com os alunos, além da enorme desmotivação ao aprendizado em sala de aula, tendo em vista que hoje estão disponíveis recursos de acesso à informação muito mais eficazes e atraentes fora da escola. Tais fatores podem explicar as dificuldades do ensino na atualidade. Há também a ampliação do contigente de alunos, especialmente de baixa renda, na rede pública.
‘‘A escola brasileira não se preparou nos últimos 30 anos para receber esse público’’ – explica Rose Neubauer, secretária de Educação do Estado de São Paulo. ‘‘Quando você atende quase toda a clientela e inclui os grupos mais afastados, você precisa de uma escola melhor aparelhada’’, afirma.
Indagada sobre as razões da queda do desempenho dos alunos, inclusive na rede particular, Maria Helena Guimarães de Castro (presidente do Inep, instituto responsável pela elaboração do exame do Sistema de Avaliação do Ensino Básico do MEC), ela afirmou não ter resposta para essa questão. ‘‘Um dos caminhos para explicar isso é tentar ver o que está acontecendo com a escola de uma maneira geral. Será que ela está atendendo à expectativa da sociedade?’’
E lembrou que a criança hoje já tem acesso a diversos meios de comunicação, ao computador, à Internet. Maria Helena destacou que tem participado ‘‘de vários seminários internacionais onde representantes de países desenvolvidos, como França, Inglaterra e Japão, estão discutindo a reforma do currículo. Os educadores têm se perguntado se a escola pública ou particular, está atendendo às expectativas da criança e do jovem de hoje.’’
Maria Helena ressaltou que ‘‘houve melhorias na área educacional como um todo, conforme constatação do último Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (IDH) e que a escola pública no Brasil ‘‘está sendo extremamente competente em lidar com essas transformações’’. A situação dos salários dos professores melhorou, inclusive, com o Fundef. Mas é evidente que os desafios continuam imensos.
Diante de tão complexa questão, é preciso que governo e sociedade se empenhem para que a escola (assim como o Estado e a família) não seja nocauteada pelos interesses do mercado. O computador nunca poderá substituir o professor, como educador. A escola visa não apenas a informar, mas a formar cidadãos. E a cidadania não é um valor que se obtém pela Internet. Exige convivência, obediência a regras solidárias, respeito ao ser humano.
Não podemos perder de vista que a escola só reencontrará sua razão de ser se souber colocar corajosamente o ser humano como objetivo principal de sua missão educacional. Se ela souber otimizar os ganhos tecnológicos a serviço da vida, terá cumprido seu papel. Do contrário, naufragará. Queremos, portanto, uma revisão não só de currículos, mas de projeto educacional. A escola não deve ser refém do mercado, mas indicar ao mercado os valores humanizadores que permitam aos alunos se tornarem cidadãos criativos e críticos. O acesso aos bens culturais deve ser garantido a todos, para o bem geral.
- VALMOR BOLAN é Doutor em Sociologia e dirigente de escola em São Caetano

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