A era do cinismo
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de março de 1998
Joel Samways Neto 
Engraçado como os prédios começaram a cair, no Brasil. Antes também caíam, mas era esporádico. Depois do Palace 2, da construtora do deputado federal Sérgio Naya, parece que começou uma onda nacional de queda-livre, sem barreiras, dos edifícios brasileiros. Tem condômino secando de insônia, tamanho o medo de um desmoronamento. Estão pesquisando alicerces com lupa, pente fino e pinça.
Alguém está agindo mal - ou sendo negligente, ou está lhe faltando conhecimento, ou sobrando imprudência. Ou foi o engenheiro responsável pelo projeto, ou foi o engenheiro responsável pelo cálculo das fundações, ou foi o engenheiro responsável pela execução da obra. E ninguém, até agora, está questionando a universidade, que forma milhares de engenheiros civis, anualmente. Como podem dar diploma a um acadêmico despreparado? Aliás, a primeira questão dos exames vestibulares deveria ser O que você pretende ser quando se formar? Há espaço no mercado de trabalho para a fornada anual de novos engenheiros? Há para os médicos?
A democratização, a vulgarização. (Vide o resultado dos provões aplicados a alunos do 2º e 3º graus.) Se houve transmissão de ciência e tecnologia, não houve pesquisa de deontologia, ética profissional. Afinal, o que pode levar um engenheiro a prescrever ferragem fora da especificação correta? Ou, o que é pior, usar areia de graça, da praia, para fazer concreto...?
Aí, dizem que o corporativismo da classe dos engenheiros não funciona nacionalmente. Quer dizer, segundo depreendi da imprensa, se o engenheiro tem cassada sua licença para trabalhar num determinado Estado-membro da Federação, poderá continuar trabalhando nos outros, como se nada houvesse acontecido!? Adianta, pois, ser punido pelo tal Conselho? (O corporativismo dos advogados, pelo jeito, encontrou um adversário à altura.)
Mais ao lado, em meio à crise de valores institucionais, o Congresso Nacional está às voltas com a difícil tarefa de conceituar delito, crime, transgressão, violação etc. Sérgio Naya, caçado para ser cassado, periga perder o mandato porque, conforme ele próprio disse, comete o pecado de ser bravateiro. Isto é, no meio de uma reunião de pares, semelhantes, parceiros, ou quase isso, contou uma série de vantagens para uma platéia de políticos. Pareciam estar se divertindo com as bravatas, movidas a álcool e stress (ainda conforme o próprio Naya). Isso é crime, é delito, é transgressão de norma disciplinar? Naya violou a norma do decoro parlamentar? Qual o problema existente nesse julgamento, que, feito dentro do Parlamento, será, sempre, um julgamento político? É que flagraram um deputado votando em nome de outro deputado. De cara, alguns quiseram jogá-lo na vala comum, junto com Naya. Depois, decreto revendo o álbum de fotografias, perceberam que muito parlamentar já tinha feito exatamente a mesma coisa - e se deram bem! E...? Bom, um dos membros da comissão que está apurando o fato declarou que não se pode condenar um ladrão de frangos à cadeira elétrica. Céus! Que comparação! E a punição? Tudo indica que bravatear é mais grave do que votar emenda constitucional em nome de terceiros. Esta conduta, dizem, deve dar apenas pena de suspensão (realmente uma pesadíssima mácula na folha corrida de um parlamentar, sim senhor!).
À sociedade fica um dilema constrangedor, embaraçoso. Como explicar essas escalas de valores, assim tão especiais, tão sutis, tão retoricamente justificada, todavia resumida no juízo de dois pesos e duas medidas. Tão complicado quanto explicar para as crianças, pré-adolescentes, de Jonesboro, que aquilo tudo que ela viu na televisão e no cinema, desde que nasceram, sobre armas, violência e assassinatos, é apenas ficção, não tem nada a ver com a realidade. É brincadeirinha de adulto, ninguém morre de verdade, é só coisa para entreter e ganhar dinheiro. Não, acho que esses festivais de cinismos da vida pública e privada brasileiras são mais constrangedores. São assim como ter que explicar aos eleitores como é que pode o senador Roberto Requião se aliar a Orestes Quércia. Ou (segura essa!) propor aliança ao senador José Eduardo Vieira, alvo preferido da maledicência requiônica. Inexplicável, eu diria.
É melhor a maioria silenciosa começar a se manifestar. É melhor os cidadãos comuns começarem a dialogar mais, a refletir mais, e arranjarem um meio de restabelecer uma escala de valores que seja ética, clara e justa. Sobretudo, que seja igual para todos. Como as leis de antigamente.


