Em texto célebre intitulado Candido, Voltaire analisa, de maneira sarcástica e ilustrativa, as aventuras e desventuras vividas por um personagem cujo único consolo ao fim de cada tragédia é escutar de um sábio a máxima de que ‘‘vivemos no melhor dos mundos possíveis’’. Outro não é o ensinamento que tentam nos transmitir nos dias de hoje, internamente, uma multidão de intelectuais, políticos e órgãos de imprensa afinados com a nova ordem estabelecida e, externamente, os organismos internacionais, mais especificamente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Ilustrativo, neste sentido, são os recentes acontecimentos relacionados ao que se passa no mundo e o que repercute no Brasil.
É assim que, internamente, multiplicam-se os discursos sobre a ‘‘estabilidade da economia’’, de que, ‘‘o real é patrimônio a ser defendido custe o que custar’’, ou então de que tudo deve ser feito para preservar o real. Em nenhum momento se questiona que estabilidade é esta que não gera a mínima segurança por parte dos investidores internacionais ou então, que obriga ao leilão constante do patrimônio público ou aumento de impostos para compensar tanto a fuga de capitais quanto a rentabilidade do capital especulativo. Muito pelo contrário, é outro o discurso empregado. Não se trata mais de explicar o que acontece mais sim de convencer o maior número de pessoas de que nem tudo vai bem mas, afinal, ‘‘vivemos no melhor dos mundos possíveis’’. Para isto foram inventadas outras máximas que, aparentemente, dispensam o debate. Basta observar os argumentos de que o nosso drama é também o de outros países e, assim, consequência necessária de um ‘‘mundo globalizado’’, da ‘‘modernidade’’, ou, pior, da ‘‘ganância’’ de certos investidores que querem tirar da economia mais do que esta pode dar, sobretudo nos países ditos ‘‘emergentes’’ ou ‘‘recentemente industrializados’’.
Enquanto que o discurso interno veste a máscara a fim de mostrar que as coisas estão ou estarão em breve sob controle, os organismos internacionais tecem a fantasia, embora a costura seja cada vez mais mal feita e a instabilidade econômica cada vez mais incontrolável a nível mundial. Em recente entrevista, figura do alto escalão do FMI alertou para o ‘‘risco da recessão mundial’’. Mas, nada há a temer pois, diferentemente de 1929, observa o FMI, hoje vivemos um contexto onde os países mais importantes da economia mundial têm uma forte capacidade e disposição para negociar as bases de uma nova etapa de desenvolvimento estável. Ou seja, contemos com os homens de boa vontade que tudo se revolverá! No entanto, é curioso observar que a solução vem através de novas fontes de estrangulamento. Outro não é o sentido do crédito suplementar de 90 bilhões de dólares que o G-7 destinou ao FMI a fim de ‘‘ajudar’’ os países ‘‘emergentes’’, como é o caso do Brasil. Certamente esta ‘‘ajuda’’ não vem de graça. Necessariamente ela deverá ser convertida em aumento da atual e volumosa dívida externa brasileira e fragilização de toda e qualquer iniciativa de desenvolvimento que tenha como prioridade atender aos interesses dos ‘‘descamisados’’. É suficiente observar quais setores são de imediato penalizados pelo último pacote governamental embora o discurso seja mais uma vez o de que de faz necessário não o desejável. Resta acrescentar a questão central: Para quem?
Certo, não vivemos seguramente no ‘‘melhor dos mundos possíveis’’. Mais correto seria dizer que cada vez mais vivemos na maior das instabilidades possíveis. Pior ainda, sem que de fale de luz no fim do túnel. E, para quem ainda guarda dúvidas, é sempre útil ler matéria publicada na edição de 31 de outubro desta Folha que, sob o título Wall Street contrata mãe-de-santo para enfrentar a crise econômica, diz: ‘‘A macumba é a última novidade para enfrentar a crise econômica internacional’’. Por outras palavras, é hora de recorrer aos homens de ‘‘boa vontade’’ mas, na dúvida, também aos melhores dos espíritos possíveis.
- ARIOVALDO DE OLIVEIRA SANTOS é professor do departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina.

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