''Desde o dia 11 de setembro, os dez mandamentos são 11 e 11º é não perderás a esperança'' (Rabino Henry Sobel). Segundo a revista ''Business Week'', o novo milênio começou realmente em 11 de setembro de 2001. É verdade que a economia dos Estados Unidos e do resto do mundo já dava sinais de esgotamento meses antes dos terroristas se lançarem contra o World Trade Center e o Pentágono. No entanto, ao nocautear a viga mestra da liderança americana - a inabalável fé na própria segurança - a catástrofe arremessou o mundo em nova era de incerteza. Há dez anos, quando a Guerra Fria chegava ao fim e as nações abraçavam os mercados livres, o mundo parecia unido pelas oportunidades que compartilhava. Agora, está unido pelo medo do risco.
Deste fato em diante, o mundo passa a viver uma nova ordem mundial. A política externa, antes dividida entre os prós e contras - seja aos EUA ou a ex-União Soviética - tornou-se um bloco quase homogêneo. Aos poucos, consolida-se uma aliança mundial sem precedentes. Certamente que neste novo desenho geopolítico, a correlação de forças, seja econômica, bélica ou de qualquer natureza, sofrerá profundas alterações. A América Latina, por exemplo, era considerada pelo presidente George W. Bush, uma das prioridades de seu governo. Agora, este foco de atenção passa a ter novo alvo: Oriente Médio e Ásia. Os ataques começaram.
Neste contexto, o Brasil é mais uma dos milhares de vítimas. Os reflexos na economia são visíveis e palpáveis: a alta do dólar, a queda na bolsa e a possível crise financeira pela redução no fluxo de capitais. Como não bastasse, iniciamos um processo eleitoral que se arrastará por mais doze meses até a escolha do próximo presidente da República.
A correlação de causa e efeito entre os fatos é não apenas previsível, mas com repercussões diretas e cruciais. Deste vertedouro culminará uma série fatores que podem resultar no agravamento das questões sociais que já nos afligem há décadas. Mas grande revolução deve nascer no coração e na alma de cada um.
Nas últimas décadas, o próprio modelo social nos impeliu a um jogo competitivo sem precedentes, onde fomos triturados pela máquina do tempo. Chega-se ao cúmulo em ter como pretexto deste holocausto a religião. Ora, os fundamentos daquele ataque insano, segundo seus organizadores, têm por princípio e como base de sustentação preceitos religiosos, os quais, em nome de uma ''guerra santa'' são capazes de cometer as maiores atrocidades. Ao contrário de outras, nesta se combate um inimigo invisível, não palpável: a fé. Pela primeira vez não se busca conquistar terras, ouro ou petróleo. Os ataques sofridos pelos EUA tinham como motivação maior o ódio, ironicamente semeado pelos próprios americanos.
Se por um lado o contra-ataque dos aliados ao Afeganistão é repetir a insanidade do ''olho por olho, dente por dente'', por outro a apatia absoluta torna-se uma espécie de contemplação a violência. Aliás, todo o extremo é indesejável. Se a violência leva ao caos, a passividade certamente leva a mais violência, pois dá ao bandido o direito da ação sem limites e inconsequente.
Daí a necessidade e o papel reservado aos grandes homens que fizeram e fazem a história. O lamentável neste jogo é que para se fazer justiça, os indefesos e inocentes pagam um alto preço. Os ensandecidos talebans, por exemplo, manipulam o povo como massa de manobra e em nome da religião e do fanatismo têm feito deles escudos para seus interesses, transformando-se am algozes da humanidade.
Felizmente a história tem demonstrado que a humanidade foi - e continua sendo - capaz de superar todos os traumas, saindo das crises sempre mais fortalecida que quando entrou. O que ocorre neste momento são os abalos naturais provocados pelo impacto psicológico.
Como afirmou a Folha em recente editorial, é preciso reverter este processo e depositar toda a confiança das potencialidades do País e em cada cidadão. A infra-estrutura de produção continua intacta e não haverá de ser alterada em função do abalo momentâneo, por mais terrível que tenha sido, afinal, nada que a inteligência humana não possa reconstruir. A condição inexorável é o 11º mandamento: não perderás a esperança.
- RENÉ RUSCHEL é economista e jornalista em Curitiba
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